folhetim

Leituras e literaturas, salpicadas de música e poesia, submersas em crítica e opinião.

Alexia G. Alves

Ler, reler, revisar, emocionar, escrever, chorar, rir: vida minha!

Realidade Ficcional ou Ficcional Realidade?

Algumas obras mesclam em suas histórias fatos tão verdadeiramente reais em sua ficção que se questiona a própria realidade. A realidade e a ficção, nestes casos, deixam uma interrogação na cabeça do leitor.


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Representar em palavras algo que toca a alma é como atribuir um número para algo que não são números. Assim é a literatura, a arte de representar a realidade, de fantasiar em cima do algo que acontece, aconteceu ou da ilusão do que vai acontecer, é convencer o leitor que a arte é realidade e a realidade é arte, é escrever pela pura arte e deleitar-se com isso.

Dessa forma, não é incomum encontrarmos algumas histórias que fazem uma grande bagunça de realidade e ficção, em que o autor se ampara numa realidade para dar verossimilhança a sua história, cabendo ao leitor a habilidade de diferenciar a realidade e a ficção, mas nem sempre essa é uma atividade fácil.

Algumas obras tornam tão reais sua ficção que têm o poder de se tornarem uma realidade reproduzida indiscriminadamente como a real realidade. Selecionei duas obras que misturam tantos, mas tantos, fatos reais que encobertos pelo mistério deixam o leitor diante de uma costura realística de realidade e ficção.

Operação Cavalo de Troia, de J. J. Benítez

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Benítez, autor de Operação Cavalo de Troia, fez o que só alguns autores conseguiram: confundir a cabeça do leitor a tal ponto de fazê-los questionar a Bíblia. Ele afirmou não ser tão criativo para criar a envolvente história da série que chega a nove volumes. A obra narra uma missão da Força Aérea dos Estados Unidos, em que uma “nave” que se desloca no tempo, vai até a época de Jesus Cristo para confirmar sua existência, essa missão leva o nome de Operação Cavalo de Troia. Como afirmou, o autor conta a história com base em diários que teve acesso, no entanto não revela detalhes e nem os tais diários.

O protagonista da história, o major Jasão, volta à época de Cristo e presencia muitos fatos bíblicos. Dessa forma, o major pode constatar algumas incoerências contidas na Bíblia atual e afirma que Jesus fala de Deus como bom e generoso, um Deus fora de templos e rituais, algo que a ciência não consegue explicar.

A mistura de realidade e a ficção nesta obra é tão profunda e aumentada pelos depoimentos do próprio autor que foi questionado diversas vezes sobre a veracidade da obra em que afirma não ser tão hábil para construir um discurso de Jesus, práticas inéditas e cheias de sabedoria, criando eventos e datas coerentes. Assim, o leitor fica com uma grande interrogação.

Fragmentos, de Binjamin Wilkomirski

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Na literatura de testemunho, Fragmentos (1995) é o melhor exemplo de como um autor pode criar em cima de uma realidade ao ponto de confundir a crítica e pesquisadores, ultrapassando a barreira criacionista, beirando a fraude e propondo uma reflexão sobre escrita e crime.

Fragmentos: memórias de uma infância 1939-1948, de Binjamin Wilkomirski, conta a história do autor narrador, quando garoto entre três e sete anos, prisioneiro de campos de concentração e sobrevivente da II Guerra Mundial. Inicialmente foi publicada como uma obra autobiográfica, engrandecida pela crítica, mas, mais tarde, revelada como uma história não verdadeira, uma obra ficcional.

O leitor é conduzido a acreditar que as memórias da primeira infância do autor narrador são verdadeiras: lembranças de familiares, rotina nos campos de concentração de Majdanek e Auschwitz, na Polônia, cotidiano no orfanato para onde foi levado durante a guerra, convivência com a família adotiva e impressões sobre si quando adulto. A fraude durou três anos, quando, depois de reportagens publicadas no jornal suíço Weltwoche, em 1998, revelaram o escândalo.

Um jornalista suíço passa a vasculhar a história de vida do autor, pois duvidava da autenticidade da obra. Assim, descobriu-se que se tratava de uma obra ficcional. Leia um trecho e perceba o tom autobiográfico:

As lembranças mais antigas que trago comigo assemelham-se a um campo em ruínas de imagens e acontecimentos isolados. (...) Estilhaços de memória dotados de contornos duros e afiados feito faca, ainda hoje capazes de ferir, se tocados. Na maioria das vezes, esparsos e caóticos, apenas raramente organizáveis numa ordem cronológica; estilhaços que seguem sempre se opondo de forma obstinada ao desejo de ordená-los daquele que se fez adulto, e que escapam às leis das lógicas (WILKOMIRSKI, 1998, p. 9).

É possível notar o esforço que o narrador faz para se articular e compor de forma clara as fragmentadas lembranças de uma experiência traumática. No entanto, estamos diante de uma obra de memórias ficcionais. Descobriu-se que o nome real de Wilkomirski era Bruno Doessekker, ele não era judeu e nem possuía origem judaica, era escritor, músico e construtor de instrumentos musicais, estudou em Genebra e tem grande acervo de livros sobre a II Guerra Mundial.

Assim, Fragmentos pode ser descrito como uma versão altamente elaborada da mistura de realidade e ficção, que causou grande escândalo e colocou em xeque o limite entre ficção e realidade.

Essas duas obras e outras tantas que podemos citar como obras de realidade ficcional ou ficcional realidade são uma minúscula parte do leque que divide a literatura em tantos gêneros e encantam tantas pessoas de diversos gostos, culturas, idades, épocas...


Alexia G. Alves

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