folhetim

Leituras e literaturas, salpicadas de música e poesia, submersas em crítica e opinião.

Alexia G. Alves

Ler, reler, revisar, emocionar, escrever, chorar, rir: vida minha!

A sociedade em Laranja Mecânica

Uma analogia entre o filme e a sociedade, marcada pela violência inerente ao ser humano.


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O filme Laranja Mecânica (1971) já foi analisado, reanalisado, esmiuçado e ainda continua sendo alvo de análises, mas ainda há o que falarmos dessa obra tão excepcional e atual sem parecermos redundantes. O filme é adaptado do romance do escritor Anthony Burgess (1962) por Stanley Kubrick.

A história é até simples, mas a trama é tão bem trançada e os detalhes que cercam o filme são inúmeros. Um rapaz violento, o protagonista Alex (Malcolm McDowell), é líder de uma gangue de delinquentes que matam, roubam e estupram. Alex foi pego pela polícia, numa cilada de seus amigos, então é preso e aceita participar como cobaia de um experimento destinado a refrear os impulsos destrutivos dos presos, depois de “curado”, volta a sociedade e vê-se em uma situação impotência diante da violência ao seu redor.

Aqui, propõe-se jogar os holofotes para dois interessantes pontos sociológicos que podem ser aplicados em nossa atual sociedade: a violência pela violência e ressocialização de quem já pagou por seus atos.

“A violência pela violência” pode ser caracterizada como aquela que não tem motivos reais para acontecer, é o prazer de ter o controle sobre a vida de alguém, é subjulgar o homem. Em Laranja Mecânica, duas cenas ilustram a violência gratuita são: o espancamento de um bêbado vagabundo que buscava refúgio embaixo de uma ponte; e o casal agredido, ele espancado, ela estuprada. Não houve na história da humanidade nenhuma civilização que não tenha tido violência, o que nos faz crer que a violência é inerente ao ser humano, inevitável (apesar de lastimável), no entanto tem seu papel na sociedade.

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Émile Durkheim, pai da sociologia moderna, afirma que dentro dos fatos sociais temos duas classificações: o estado normal e o estado patológico. No estado normal, ele considera violência como parte integrante, cumprindo o seu papel; mas é no estado patológico que podemos ver a violência saindo do controle, geralmente, neste estado, a sociedade presencia ondas transitórias e excepcionas de violência. Assim, podemos fazer uma analogia com o pensamento de Durkheim e a violência apresentada no filme Laranja Mecânica: Alex, estado patológico, era o grande gerador da violência, incomodando até mesmo seus amigos, que buscam restabelecer o estado de normalidade, denunciando o líder.

Dessa forma, a violência pela violência é completamente infundada, pois não busca nenhum fim “social”, como a necessidade de sobrevivência, oposições ao governo, manifestações públicas, apenas satisfaz o sádico desejo de alguém.

Outra interessante discussão pode ser iniciada com a pergunta: “A sociedade está pronta para acolher aquele que cometeu um ato ilícito e pagou por seus atos?” No filme, podemos notar que a resposta é “não”, pois quando Alex “curado” retorna ao seio de sua família, não é bem recebido e é descartado e trocado por outro rapaz que aluga seu quarto na casa dos pais. O mesmo acontece quando ele reencontra seus amigos, agora policiais, e o acolhem com uma calorosa surra. Os crimes que ficam famosos na sociedade, ganhando grande visibilidade por meio da mídia, não deixam dúvida que a resposta da pergunta é não, a sociedade é dura e hesita ao perdoar autores de crimes hediondos. No filme, Alex só é perdoado quando vitimizado por ter sido usado como cobaia em um experimento que envolvia forças políticas duelando para uma melhor posição.

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Malcolm McDowell completou 70 anos no dia 13 de junho. Aos 28 anos, deu vida a Alex, um dos mais famosos vilões psicopatas.

Alexia G. Alves

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