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Leituras e literaturas, salpicadas de música e poesia, submersas em crítica e opinião.

Alexia G. Alves

Ler, reler, revisar, emocionar, escrever, chorar, rir: vida minha!

Releituras: O brilho de uma estrela nada brilhante

Reler alguns livros que já lemos há alguns anos pode ser uma grande surpresa, A Hora da Estrela revela-se como um universo rico com uma estrela nada brilhante ganhando alguns breves momentos de brilho negro.


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Algumas obras são famosas por serem adotadas pelos grandes exames de vestibular, o que, muitas vezes, pode criar um estigma em cima da obra, mas ler um livro para um exame, quando se está sobrecarregado de fórmulas e decorebas manjados, é muito diferente de ler uma obra somente por sua essência.

Assim, aconteceu! A obra da incomparável Clarice Lispector, A Hora da Estrela, mostra uma “meta-história”, uma dentro de outra. Ao começarmos a ler percebemos um suspense que faz a história demorar a desenrolar. Será? A melhor resposta é “depende de qual história”. O enredo é simples, nada vistoso, mas a estrutura complexa enche os olhos de leitores maduros: o texto é sustentado pela vida sem graça de Macabea, pela história do narrador Rodrigo e sua reflexão do texto que está construindo. Esse tripé mostra o quão hábil era Clarice em articular planos sem confundir seu leitor, primando por uma leitura leve.

Além de conseguir criar um universo dentro de outro, Clarice ainda dá um foco social para sua obra, chamando atenção para o drama da imigração nordestina, pessoas que buscam uma melhor realidade, mas acabam encontrando, muitas vezes, um martirizante questionamento existencial que lhes pesa a alma. Quando amarrado na teia Clarice, Rodrigo e Macabea, não raro são os questionamentos sobre a própria existência do leitor.

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No entanto, é na cereja do bolo, o título do livro, que a obra ganha o verdadeiro brilho, calando os questionamentos existenciais anteriores, levando o leitor ao ápice da existência humana -- a morte. O título remete a dois momentos Macabea morre atropelada por uma Mercedes, cujo símbolo é uma estrela, assim, metaforicamente, a estrela traz A Hora de Macabea; além disso a protagonista só consegue algum destaque na sua vida, quando está caída e agonizante na rua, assim sua morte a torna estela por um dia.

Quantos já não tiveram seu momento de estrela apenas na morte? E quanto a você?


Alexia G. Alves

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