folhetim

Leituras e literaturas, salpicadas de música e poesia, submersas em crítica e opinião.

Alexia G. Alves

Ler, reler, revisar, emocionar, escrever, chorar, rir: vida minha!

À memória dos esquecidos

Qual o limite entre a razão e a loucura? O homem comete todo tipo de atrocidade com tudo o que há na Terra, mas é assombroso o que consegue fazer com sua própria espécie. Longe dos portões nazistas e pertinho de nós, o maior hospício do Brasil, logo ali em Minas Gerais, cometeu infinitas barbáries.


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Com passe livre para todo tipo de atrocidade, o Hospital Colônia de Barbacena (MG) matou, mutilou e suprimiu toda dignidade de milhares de pacientes. O hospital psiquiátrico começou como um sanatório para tratamento de tuberculose, mas acabou se tornando um depósito de pessoas doentes ou marginalizadas por todo tipo de motivo. "O Colônia tornou-se destino de desafetos, homossexuais, militantes políticos, mães solteiras, alcoolistas, mendigos, negros, pobres, pessoas sem documentos e todos os tipos de indesejados, inclusive os chamados insanos", afirma Daniela Arbex, autora do livro “Holocausto Brasileiro: Vida, Genocídio e 60 mil mortes no maior Hospício do Brasil”. Estima-se que 70% dos pacientes não tinham nenhum transtorno psiquiátrico e cerca de 30 bebês nascidos na Colônia foram doados sem a autorização das mães.

O índice de mortes era altíssimo, atingindo uma média de 16 óbitos por dia, as causas das mortes eram por conta dos maus tratos, afinal viviam nus, comiam ratos, bebiam água sem tratamento, dormiam ao relento. O hospital passou a comercializar os cadáveres para faculdades de medicina, e no período de baixa compra, os defuntos eram banhados em ácido, bem diante dos internos.

colonia3.jpeg A realidade da Colônia era a de um campo de concentração, onde homens e mulheres morriam de inanição.

Daniela Arbex coloca o dedo na ferida e mostra como a sociedade, legitimada pelo governo e pela própria população, lidava com os indesejados. O Brasil condenou 60 mil pessoas a morte, submetendo todas a uma vida miserável e degradante. O livro reúne testemunho de internos, médicos e funcionários que passaram pelo hospício.

Uma das maiores vergonhas brasileiras era desconhecida de população, pois a ditadura abafou o drama de Minas Gerais, que chegou a ser denunciado em 1961, mas só depois de hiato de 18 anos, em 1979, após mais denúncias e reportagens sobre o hospício e a condição degradante que oferecia aos internos, a Colônia foi desativa e os pacientes transferidos para instituições menores, em 1980.

Book trailer do livro

A sociedade, ou quem sabe a própria humanidade, não consegue entender e aceitar as pessoas mais vulneráveis e as que adotam um padrão de comportamento diferente do que o da maioria das pessoas de uma determinada época. Quando o diferente incomoda, a população clama por uma solução e o governo passa a suprimir direitos das minorias, gerando uma invisibilidade social, autorizando todo e qualquer tipo de tratamento degradante, afinal trata-se de pessoas que não se encaixam nos moldes da sociedade.


Alexia G. Alves

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