Eunice Pimentel

Os outros


empty_people.gif Tão pobre a gente que se ostenta.Tão pobre o brilho da superfície. Tão igual. Tão medonhamente igual. Diferença do nada, do coisa nenhuma. Tão grande o foço entre si e os Coisa Nenhuma. Abismal. Foço entre si e a gente. Gente que afinal não é gente, é superfície. Superfície lisa, fria, mármore da mais rara, da mais cara. Mármore fria. A mesma que ostentarão quando a pele apodrecer entre vermes e vísceras debaixo dela. Superfície estranha a destes que se julgam gente e não passam de nadas. Nadas ambulantes que riem do que não tem graça, que se preenchem com ar de nada, ar de arroto de estômago vazio. Alma vazia. Espírito vazio. Nadas que conversam efusivamente sobre coisa nenhuma. Nada que importe a alguém, nem a eles. Saldos. Estas superfícies que por aqui perto deambulam diante de si estão em saldos. Abutres que a rodeiam em tentação de brilho fútil. Não a cegam mais. Não a envolvem mais. “Vais acabar sozinha!” Martelava em si esta frase aos gritos. Desde muito cedo que esta frase a martela por dentro aos gritos. “Vais acabar sozinha! Que ninguémte te está para aturar!” Mais completa lhe fica a memória, a recordação que a toma aos gritos. Acabará. Aceita o destino predestinado. Assume-o mas não cede. Não gosta de preferências, nem de tendências. Não gosta de superfícies lisas. Gosta de sulcos compridos em lenhos leves que se aventuram no desconhecido do universo. Seja lá o que o universo for é para lá que quer ir, na plenitude do longe destes corpos feitos de mármore fria que brilha à superfície.

Agosto 2011
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