Eunice Pimentel

Abraço


Nunca é demais referir os nossos, só porque sim, porque merecem, porque somos tão grandes na literatura. Somos passos gigantes imprimidos no espaço, no tempo. Este é mais um nome no meio de tantos outros que nos enriquece, que nos projeta a cultura e a língua. Este é o nome do momento. De Portugal para o mundo.

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Era uma vez uma leitora desleixada. “Nunca tenho tempo para ler” dizia ela e com a desculpa “tenho sempre muito trabalho da escola, chego sempre muito cansada a casa e depois há tudo para fazer: banho, jantar, hora de dormir, historinha para dormir e ainda o trabalho, as aulas para preparar... É tudo eu! Tudo eu!” Lia pouco. Um ou outro livro de vez em quando, raramente. Lia a Visão todas as semanas e bebia as crónicas de Lobo Antunes. Um dia, em agosto, numa esplanada soalheira em Vila Nova de Cerveira lê este título “Amo-te”. Achou o máximo a crónica, a dimensão daquela declaração de amor, daquele escritor que em público, naquele tipo de revista decidiu “Amo-te” e muito mais que amo-te, deu tudo de si, ali naquele texto, nú. Tempos depois uma outra crónica “Debaixo da roupa, estamos todos nús”. Esta então mexeu muito consigo, por ser uma professora non clássica, com estilo próprio, gostos próprios e pouco interesse em pertencer a qualquer que fosse o rebanho. Identificou-se. Sentiu-se debaixo daquela roupa, daquela pele. Saiu um romance do escritor. Foi à sessão de autógrafos, conversou um bocadinho com ele. Pareceu-lhe um gajo porreiro, “este gajo escreve tão bem, é tão intenso e parece ser só um gajo porreiro” achou isso magnífico, achou essa a razão de ser o escritor que é. Assim como achou fantástico o meio calão da conversa, os dois trintões, vividos dos anos 90. Ela com toda a frontalidade “Conheci a tua escrita pelas crónicas da Visão” aquelas duas em especial… “Fiquei surpreendido com o sucesso que tiveram…Foi bom”, “Não sei onde andei este tempo… Mas vou ler-te em rewind” . Ele sorriu-lhe e olhou-a nos olhos e disse-lhe para que lesse o seu livro Livro até ao fim. Acho que ele percebeu que ela era uma leitora desleixada. Já leu O Antídoto, o Cemitério dos Pianos, Uma casa na escuridão e agora já tem o Abraço, este lê-o entre um romance e outro, um livro e outro, é como um respirar fundo entre as leituras, uma pausa, um suspiro, um abraço.


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