Eunice Pimentel

Devaneio XI


gavetas.jpg

A sensação que tenho é que estou deslocada. Não pertenço a nada disto. Cada vez me distancio mais de todos, do mundo inteiro que cada vez me diz menos. Sinto-me uma marioneta a quem trocaram os cordelinhos da vida.

Sofro. Com toda a análise exaustiva que faço de mim, das pessoas, de mim com as pessoas… dos espaços, dos mundos a que tenho acesso e não gosto. Não gosto de nada. Nada me satisfaz. Esta realidade malvada, cruel: o egoísmo constante, o desinteresse pela vida dos outros, não no sentido de querer saber da vida dos outros, mas pelo sentido da preocupação pelo bem, pela felicidade que é saber que estão bem, que se está bem. Não! Analiso a preocupação com o restringido sentido de se preocupar com o mal dos outros. Devemo-nos preocupar com os outros (ponto). A palavra preocupar é tão abrangentemente zelosa (embora por vezes me quisesse demitir da preocupação de me preocupar).

As pessoas más repugnam-me. Sinto-lhes nojo pelo limite da sua existência que consideram existência limite e soberana, mas trocam-se em valores, em conhecimentos, em hipocrisias medíocres, em posições sociais, em fardas sociais de gente má e vazia. Desrespeitam a vida e o seu valor, desrespeitam a sua própria humanidade. Que nojo!

Da gaveta do meu pensamento, como uma língua que se desenrola da testa e à medida que piano os dedos pelo teclado, surge uma lista de pessoas más que risco a vermelho. Não lhes dou nome, mas guardo-lhes o rosto e no pescoço de cada um penduro, com o meu jeito de olhar nos olhos, o limite da sua existência, o nome do limite da sua existência: tirania, egoísmo, egocentrismo, intolerância, ganância, cobiça, vaidade, prepotência, orgulho, discriminação. Penduro em cada um dos seus bustos, vendados de negro, palavras que significam actos. Páro, inerte, à frente de cada um dos rostos do meu pensamento e à frente de cada um, com o meu jeito de falar, com a minha voz, dito-lhes cada um dos seus limites e peço-lhes “Repitam sem gritar… Repitam devagar”. No eco do meu pensamento eles repetem sem gritar, devagar e o nome dos seus limites ecoa em mim por dentro, transforma-me o pensamento, a sensação de estar aqui. O eco chega ao coração que pára para ouvir com atenção e no arranque do motor já limpo e lubrificado bombeia sangue puro, ele próprio está puro.


version 1/s/// //Eunice Pimentel