Eunice Pimentel

Eu sou eu


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Não, não tenho necessidade de o fazer. Não tenho necessidade de mostrar algo mais de mim que os conhecidos desconhecidos merecem, afinal não me conhecem. Afinal não passam de desconhecidos a quem digo “olá, bom dia! Olá, boa tarde! Tudo bem?” e aguardo a resposta, mais do que suficiente, “Tudo bem”. Houve tempos. Houve tempos em que não sabia usar ainda a minha máscara social e nem sequer dizia nada. No sentido de refletir no outro, provocar no outro, precisamente o nada que me significava (tenho dias…) E pensava nisso. E penso nisso. Pensava que era propositado, se fosse eu realmente não seria assim tão grotesca e devia isso aos meus pais, os meus pais mereciam que não fosse eu pedra bruta, mas eu pedra lapidada. E eu fui sendo. E estou bem, obrigada.

Os meus pais. São quem respeito mais que tudo. Por vezes a minha própria personalidade tolhe-me e tolhe-os a eles por consequência. Ainda me tentam ensinar a ser social. Discutimos o assunto à mesa (é sempre à mesa que se discutem os assuntos) e eu desculpo-me, aliás explico-me: O cumprimento dita o quê de alguém? Simpatia. E o que é a simpatia afinal? Afinidades, gostar, preocupar, zelar, sorrir. Então não quero ser simpática, serei com quem acho merecedor da minha simpatia, em quem acredito que nutre laços, carinhos, zelo, preocupção. Se esperam que me levante da cadeira da esplanada para dizer olá, eu não levanto. Se esperam que acredite em miopias frustradas, eu não acredito. Se esperam a vénia eu não a faço. E explico: não me submeto a hipocrisias sociais, não arreganho dentes, eu sorrio. Eu não sou eles, não quero ser eles! Os meus pais indignam-se comigo e sinto-lhes a debilidade em se conseguirem impor nesse ser social que eles acham que seria o melhor para mim. Sorrio-lhes e eles próprios acabam por me sorrir.

Portanto, se anuncio privacidades macilentas, bafientas através da escrita é porque quero, sou eu que quero, na consciência do acto, quero fazê-lo, propositadamente. Os desconhecidos gostam disso, é isso que eles querem e eu dou-lhes aquilo que equerem. Sou eu que giro o que quero que se fale, já que se fala sempre, mesmo que não seja verdade, mesmo que não se procure saber a verdade, mesmo que não se procure, se saiba nada, se entenda nada. É bom que sejamos nós a gerir o que se diz, a controlar a sede. De mim terão meio copo de cada vez e por vezes a ilusão de copo cheio.

Esta sou eu. Eu chamo-me Eunice. Eu ecrevo.


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