Eunice Pimentel

Intermenitências da vida


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A ambulância. As sirenes intermitentemente azuis. Os enfermeiros de maca em punho, intermitentemente cansados, desciam as escadas. Desciam as escadas tão velhas, tão podres como as casas, tão frágeis como a gente, tão íngremes como a droga que arrasta consigo, casa sim, casa não famílias inteiras de gente que diz tantas asneiras como beija ou abraça. As escadas pareciam não acabar mais. Os gestos nas janelas, empoleirados como as roupas que o vento venteia ao luar. Cabeças de gente que venteia a futriquice. O gesto que entra e sai das janelas. Gesto que abre janelas e corre cortinas. Gesto que empoleira a cabeça. Gestos velhos, gestos novos, de homens magros, de mulheres gordas que apanham o cabelo com molas para melhor mostrar o ouro: as orelhas de ouro, o pescoço de ouro, os dedos de ouro. As mulheres que empoleiram o ouro que mascara a frustração da pobreza, especialmente de espírito, mas que gritam e batem no peito o orgulho boçal de quem nada tem mas que mostra ter tudo. Falam alto, muito alto e mais alto ainda desde o nascer do sol ao nascer da noite. Quando a noite nasce as escadas tornam-se horrores até ao rio e nos becos choram-se horrores em rio de sangue, em rio de lágrimas. Chora-se a vida que já não é, chora-se a morte por ser. Chora-se. Gente. Os gritos roucos da mãe. Os gritos mudos do pai. Os gritos surdos do filho. O filho que quis morrer mas já não quer mais. - Não me quer, Mãe! Ela não me quer mais na sua vida, minha Mãe! - Que vida? Que vida, meu filho? Que vida tens tu? Não tens nada! - gritava-lhe enquanto o tentava agarrar em abraço que não era bem abraço mas era uma forma de o ter nos braços. Tocar-lhe para lhe acalmar a fúria enfraquecida, tão enfraquecida como doida e perdida. - Mãe? A mudez do pai era espessa, impenetrável, mais dolorosa ainda. O sofrimento parecia maior ainda. O grito mudo em sufoco pela dor, pela impotência. Podia bater-lhe, pô-lo de castigo, dar-lhe uma lição. Para quê? Aquele não era o seu filho. Aquele era mais um homem das escadas, possuído por um monstro que roubava o seu menino de si. Uma semana antes, ao telefone, o pai pediu-lhe numa súplica delicada, ternurenta, afável mas aflita, pediu-lhe: - Tira-lhe o chão dos pés, minha filha! Tira-lhe o chão dos pés… Ela tirou-lhe o chão dos pés e ele entre a droga, o ciúme, o devaneio, a culpa, a mente desassossegada, o delírio, o pensamento inquieto, a ressaca quis morrer. - Ela não me quer, Mãe! Depois de muitos degraus descerem, lá chegaram, cansados, exaustos de socorrerem. - Então, minha senhora… - O meu filho, o meu filho mais querido… o meu filho… tomou isto tudo, estes medicamentos todos sr. Dr.º, tomou-os à mão cheia… Cambaleante, balançando-se no próprio corpo. Balançando-se, no baloiço em que a sua mente se tornou, o Douro, no mesmo momento, entre um menear de cabeça lento e vagaroso, tombou para a esquerda e para a direita. As luzes da noite de Gaia, na outra margem, desfocaram-se aos seus olhos vazios e morreu. Caiu morto de si nas escadas. Morreu por uns instantes. Morreu por uns segundos. Morreu. E lá se deixou inerte a abraçar a morte. Abraçou-a. Abraçou-o. Nos instantes, nos segundos, nos minutos que passavam, no tempo que folheava com os dedos. Deslocava-o como peças de dominó, brancas e pretas, pretas e brancas. Recuava-as, umas atrás das outras, recuava-as. O tempo a passar-lhe nos dedos. A morte a abraçá-lo e ele a abraçar a morte. Ela não o quis. Pô-lo de pé em frente a si. Olhou-o bem, sorriu-lhe, beijou-lhe a testa, acarinhou-lhe o rosto e libertou-o. Num suspiro ouviu a Mãe que chorava, ouviu o médico que o chamava. Abriu os olhos mas não estava lá, não estava lá o rosto de quem mais queria, de quem mais amava. Levantou a mão direita no invisível e quis tocar o que o seu pensamento lhe mostrava, mas não estava lá. Levaram-no na ambulância das sirenes intermitentemente azuis. Com a mãe intermitentemente frágil e ele intermitentemente vivo. Chegaram na intermitência do limite: cansaço, vida, morte, amor. Quis sair. Quis fugir! Quis esquecer-se de si mais uma vez. Esquecer-se de si pela última vez. Mas ela não o largava. Ela não lhe largava o pensamento. O pensamento que lhe voava de si. O pensamento que seguia o rumo da maresia, do sentimento, da cama desfeita, dos lençóis amachucados de loucura abençoada de ternura. Quis sair. Quis esquecer-se de si. Quis fugir mas ela teimava em não lhe largar o pensamento. Encostou-se ao muro branco do Hospital. Tateou os bolsos das calças. Meteu-lhe a mão dentro. Tirou o maço. Depois o isqueiro. Inclinou a cabeça para a direita e acendeu um cigarro tonto. Fumou o cigarro. E no cigarro tonto que fumava, do fumo saia-lhe o rosto que tanto queria ali, no momento do agora, na aflição daquele presente que vivia de si, por si, em si, sozinho. - Amor… Amor?! Lutou. Lutou mais ainda. Lutou. Fraquejou. Lutou outra vez. Caiu. Lutou. Lutou de novo. Chorou. Lutou. Saturou. Lutou mais ainda, outra vez, de novo. Lutou. E andando e parando, andando e parando chegou ao seu destino e entrou. Decidiu ficar. Quis ficar para a continuar a lutar.


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