Eunice Pimentel

Mulher


mulheres picasso.jpg O dote é um costume antigo, porém ainda usado em algumas regiões do mundo. O dote não é mais do que o estabelecimento de uma quantia de bens e dinheiro oferecido a um noivo pela família da noiva, para acertar o contrato, o casamento entre os dois. Amor. Ai o amor… Esta é uma atitude ultrapassada, afinal estamos em pleno século XXI, as mulheres são livres, independentes, primam por exteriorizar uma beleza atípica, francamente melhorada: depila-se, maquilha-se, alisa o cabelo, encaracola, faz madeixas, pinta, rapa, veste calças, minissaia, leggings, usa unhas de gel: vermelho, verde, amarelo, azul, rosa, calça stiletto, calça sapatilhas, vai ao ginásio, malha, sua, sofre, canta, ri, sai à noite, bebe copos, brinda, discursa, assume poder, manda, lidera. Mulher. Ai Mulher… A mulher faz tudo, o que quer que ela queira. As mulheres dos dias de hoje são seres completos, perfazem-se entre um corpo que cuidam e uma mente que alimentam. O que me indigna é que em alguns locais, meios sociais (nem sequer se pode falar em estrato, isso é tenebroso e assunto para outro texto) para algumas pessoas, pessoinhas, pequeninas, ninhas, zinhas o dote é uma esperança, é um sorriso nos lábios e as mulheres desesperam e desesperam tanto que querem um noivo, nem que seja um noivo com dote!   A mim parece-me um ultraje e deixa-me a pensar na própria posição da mulher nesta situação. Que mulher é esta? Nos antepassados ela não tinha voz, era obrigada. Se não o amava, que era o mais certo, porque normalmente estes eram casamentos arranjados na infância ou antes do próprio nascimento, seria castigada ou morta se recusasse, se alegasse que amava outro ou que simplesmente não amava ninguém por ser apenas uma criança.  Hoje. E hoje, o que move uma mulher que aceita, acredita, atiça no progenitor a vontade de um noivo, de um noivo com dote? Desespero? Loucura? Ausência de auto-estima, amor próprio? Vazio? O quê? Que mulher é esta que não conhece a história da própria Mulher e se deita arbitrariamente naquilo que lhe parece o tapete vermelho da luxúria para ser usada? E usada uma, duas, três, dez, vinte, mil vezes. Usada. Amor. Ai amor, ai mulher. mulher. A mim parece desrespeito pela história, pelos antepassados. Esfuma-se numa nuvem como se não tivessem havido mulheres a lutar pelo seu sexo, pela força do seu género. Mulheres que arrancaram o coração do peito e dentro dele estavam os seus filhos, para se encostarem aos cornos do touro. A história reconhece todas elas, todas elas estão na nossa história, Mulher!


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