Eunice Pimentel

No dia em que nasci...


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Ouvi hoje a estória do meu nascimento. O meu pai fez questão de me contar a estória do dia em que nasci. Verão em Moçambique, inverno em Portugal, mês de natal. Fiquei a saber que a minha mãe quase que morria e eu quase que morria. “Foi uma bênção de Deus” Foi o que Deus quis. E Deus quis que viesse ao mundo lutar. Sei agora que luto constantemente com tudo porque Deus quis que viesse a lutar. “Quase que morrias… nem sabia o que fazer quando te tive nos braços...” “Sofrimento horrível, horas de sofrimento horrível… quase 48 horas de sofrimento...” “E eu a ser torturado psicologicamente… a pensar que morrias que me morriam as duas!” “E eu a sofrer fisicamente a pensar que morria...” “Quando te tive nos braços… não consigo descrever o alivio que senti…” “Não me lembro do momento de nasceres… nem dos momentos a seguir… lembro-me do carreiro das formigas quando acordei no dia seguinte...” Nasci e estou aqui. No dia em que eu nasci o meu pai pensou que lhe morriam as duas. O meu pai percorreu a cidade da Beira de uma ponta à outra. Atravessou a cidade à procura de um médico. Não era um médico qualquer, era o médico porque pensou que lhe morriam as duas e queria salvá-las. O meu pai sentiu-se “impotente” porque não conseguiu controlar a situação com as suas mãos, queria controlar mas não podia, não conseguia, não tinha esse poder porque se lhe morressem as duas, ele não podia controlar a morte. O meu pai sentiu a morte, viu a morte e por a ter visto no desespero da mulher que paria a filha, em sofrimento do grito, do negro da carne e do sangue, o meu pai quis dominar a morte. “Não morreste mas és assim!” O meu pai acha que o meu ser instável, insatisfeito, inseguro, intempestivo se deve ao facto de não ter morrido no dia em que nasci: sobrevivi mas fiquei assim. Assim: esta mulher.


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