Eunice Pimentel

Poesia


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Ao impor-me o desafio de definir poesia percebi que é uma tarefa quase impossível. Tão impossível quanto definir o próprio impossível. Tão impossível como tentar definir palavras do quotidiano. Definir as próprias palavras, o próprio quotidiano. Definir dia, tempo, sombra, sonho, madrugada, por do sol, vida. Definir flor, cheiro, almofada, pranto, carícia, carinho, ternura, alma, grito, dor, amor, verdade, criança, palavra, sorriso, orgasmo, toque, prazer, beijo, murmúrio, pessoa, pensamento, maçã, crença, Deus, Universo, anjos, demónios. Definir o que se sente é quase impossível. É difícil definir o que se sente quase como é tão difícil sentir, se esse sentir amargurar, penetrar a consciência, falar em nós, gritar em nós até o rouco do nosso grito ensurdecer a esperança, a vida que, no fundo, é a esperança de alcançar, alcançar seja o que for. A vida é a esperança de alcançar seja o que for. Tudo isto, todas as palavras são signos linguísticos responsáveis pela representação das ideias. Responsáveis pela representação da própria realidade. Estamos presos a eles, precisamos deles para nos definirmos enquanto gente. Gente. Gente é multidão. Multidão é pessoas. Pessoas. Pessoa é alguém que pensa e sente. Alguém pode ser ninguém, como pode ser pessoa. Alguém. Estes signos são as próprias palavras que, por intermédio da capacidade humana de falar e escrever, associamos a determinadas ideias, pelo menos às ideias que conhecemos, aquilo que nos chega pelos cinco sentidos e mais um. Aquilo que nos chega. Todas estes signos são uma ferramenta, um utensílio, um instrumento que nos permite comunicar e representar a concretização linguística da realidade, das ideias, diferenciando, distinguindo tudo o que nos chega. Eles são tudo aquilo e mais alguma coisas que nos chegou e que o nosso cérebro armazenou ao longo do tempo. Estão estratificados na mente em consciente e subconsciente. E na mente de cada um elas ligam-se ao coração pelas memórias, experiências, sentimentos, pela vida. Os signos distinguidos são difíceis de definir porque ao fazê-lo definimos apenas o que é. E são no mais básico de ser, é assim, define-se assim, significa isto. São impostos por uma língua e uma cultura estabelecidas, pré estabelecidas. Trazer estes signos para o coração e pensá-los é tarefa quase impossível. A poesia é um signo. A poesia é um signo que está no coração. A poesia está no coração. A poesia é o coração em teias de consciência , numa dança sensual de entrega. Um tango. A poesia é um par de bailarinos, coração e razão a dançar um tango. A poesia é um tango.

* Se aqui tivesse os teus olhos, Sem que esta distância nos consumisse, Aprisionava-os aos meus Com duas correntes de aço. Em cada um lançava uma âncora feita de abraço. No regaço traria a tua alma, depositava-a inteira no meu coração. Tu, lá dentro, Suturarias os sulcos com beijos Lamberias as feridas Transformarias os sonhos em desejos * O beijo sonho-o quente e profundo faminto, sequioso sonho-o húmido mordido querido amado o beijo... sonho-o contigo dentro na minha boca * Hoje sou vento… tempestade… aqua… focum… labaredum… terra… petra… pulvère… voando… amanhã serei… serei nada… ninguém… floresci por dentro de mim um ramo da árvore da vida plantada num tronco perdido dentro de ti… terra… aqua… focum… aéros… eu… tu… nós… * P.O.E.S.I.A A.I.S.E.O.P P.A.S.O.E.I P.O.E.S.I.A
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