Eunice Pimentel

O sorriso


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Há vários tipos de sorriso: sinceros, sarcásticos, largos, fechados, amados, sofridos, gratos, cínicos, ressabiados, silenciosos. Sorrisos de todas as cores, de todas as espécies, de todos os sabores. Recordo um . Um sorriso num dia de frio. Um sorriso quente num dia de frio. Recordo-o, retenho-o, é meu. Nesse dia de frio que depois foi chuva vi um sorriso quente que vagueava pela cidade, meio perdido, meio achado, solitário. Nesse sorriso vi-me refletida, nesse sorriso enterrei as mãos e dei para dentro dele um coração frágil que palpitava vida. Arranquei de dentro dele um coração frágil que palpitava vida. Nesse dia frio que depois foi chuva sorri, permite-me sorrir por dentro. Não é que os meus lábios sorrissem muito no momento em que sorri, não precisavam, porque os meus olhos brilhavam um sorriso. Os lábios não conseguiram mover-se, estavam imobilizados pela fixação de um olhar tão terno como sedutor. Bebia-me as palavras, analisava-me a postura. Analisava. Sorri por dentro e depois por fora, primeiro receosa, de olhar inseguro, debaixo da sobrancelha e depois inteira. Sorri inteira. Entre trambolhões de sorrisos em queda livre, cascatas, exaltações de prazer, elogios da loucura, de novo os sorrisos e o beijo. Sorrisos em catadupa, uns atrás dos outros, em fileiras, desesperados por sorrir o sorriso do reencontro. "Nunca tinha sorrido antes… não assim este sorriso…","Nunca tinha pensado em sorrir assim… deveria pensar este sorriso…", "Não se pensa o sorriso… faz-se sorrisos, gera-se sorrisos… faz-se sorrir… sorri comigo, à minha beira…" Não haverá dia em que não lembre o dia em que sorri por dentro, temi sorrir por fora afinal estava cercada por um sorriso largo, surpreso, grato, grande. Aquele sorriso não precisava de esticar os braços para me tocar, abraçar, sentir. Aquele sorriso desejava, sentia o odor da pele sem a cheirar. Desde que os dois sorrisos se entrelaçaram em mãos dadas, que o sorriso se tornou mais sorriso, o dia mais dia, a noite mais noite, o amor mais amor. Desde que os dois sorrisos se entrelaçaram em mãos dadas que a vida se tornou mais vida. O sorriso sempre foi o remédio, sempre foi o consolo, o abraço na distância. Rendeu-se escancarado a tudo num todo: verdade, mentira, ilusão, devaneio. O sorriso foi a solução, a causa e o efeito. O sorriso Mais, muito mais sorriso. O sorriso meu, muito mais meu. O sorriso teu, muito mais teu. Ainda hoje sorrimos e quando o fazermos o sorriso é o remédio, a causa e o efeito. O sorriso é a razão para sorrir. Sorrir basta. Para amar basta sorrir um sorriso quente, não pensado, num dia frio que depois foi chuva.


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