Eunice Pimentel

Florbela


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Encontro-me a breves momentos após ter assistido a estreia do filme “Florbela” de Vicente Alves de Ó, com a atriz Dalila Carmo como protagonista, Albano Jerónimo como Mário, o segundo marido de Florbela e Ivo Canelas como Apeles, o irmão, a sombra, o fantasma eternamente presente. Após a separação violenta do primeiro casamento, Mário recolhe Florbela na sua casa de Matosinhos, perto do mar, mar este que a perturba: dia e noite, dia e noite o mar. Casam-se, mas Florbela não se adapta aquela vida calma, silenciosa e no dia em que recebe uma carta do irmão Apeles, corre para Lisboa ao seu encontro.

Perturbador é o adjetivo que encontro para definir aquilo que sinto. Não que estivesse à espera que fosse diferente. Sabia que seria, queria que fosse exatamente assim: perturbador. Não podia ser de outra maneira, afinal trata-se do retrato íntimo de parte da vida desta que foi a “poetisa eleita”, um nome marcante do painel da poesia portuguesa do século XX. No silêncio inicial, em fundo negro do pensamento os versos do soneto “Eu” “Eu sou a que no mundo anda perdida Eu sou a que na vida não tem norte.”

A partir daqui tudo pode ser deduzido, até por aqueles que não a conhecem verdadeiramente, que leram apenas um soneto ou outro, que ouviram apenas a musicalização do poema “Ser poeta” dos Trovante. Tudo pode ser deduzido: insatisfação, perdição, inquietude, dor. Dor. Dor. “A dor é precisa para saber que se está vivo” diz-lhe Apeles após a sua morte trágica num acidente de aviação. Engolido pelo Tejo, levou com ele a alma de Florbela. Vê-o surgir nas ondas do mar em Matosinhos como um herói que espera, na espera da salvação de si. Incompreendida, mulher demasiado mulher para o Portugal retrograda do fim da I República, Florbela tenta. Tenta ser a esposa ideal, a filha ideal, a irmã ideal, falha. Tenta ser mãe, falha. Tenta ser contida e tenta ser feliz, falha. Tenta amar e satisfazer-se, falha. Estas falhas sucessivas, esta contenção de fachada encaminham-na para a derradeira perdição, para a busca da morte e escreve-lhe “Morte, minha Senhora Dona Morte/Tão bom que deve ser o teu abraço!” Toda a sua vida foi repleta de sofrimento, de dor extrema, elevada ao máximo. Nada a satisfazia. Nada. Nem o amor, nem a gente, nem grito, nem lágrima. Nem poema. Poema. Nem palavra. Palavra. Nada. Alma errante feita do extremo, do pleno ou do vazio. Do vazio em pleno. Entre a realidade e o sonho, os poemas surgem. Não os comanda, surgem. Rejeita-os. Para ela aceitá-los seria a aceitação da sua própria indefinição, da sua própria loucura. Culpa-os. São os culpados da sua dor e infelicidade. Para os outros, os seus poemas são a mestria das palavras, a exteriorização absoluta do “eu” inquieto, insatisfeito, angustiado. A elite intelectual de Lisboa procura a poetisa, reconhecem-na e ao longo do filme a súplica imperativa: “Escreve! Escreve! Escreve!” Escrever seria prender Florbela à realidade, à sanidade, à vida.

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