Eunice Pimentel

O Alvo


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Na vida deveríamos poder fazer realmente tudo o que nos dá na real gana, sem freio da consciência, fazer e pronto, depois logo se via. Fazer tudo o que nos dá na real gana é viver sem temer o que os outros pensam, porque por muito que se diga (que eu diga) que não importa, que não se quer saber, importa, quer-se saber (quer dizer… mais ou menos…). Escravizamo-nos aos outros, outros esses que na maioria das vezes nem sequer gostamos , mas queremos saber. Para quê? Pois… não sei… Rotulamos e deixamos que rotulem (sim, que as pessoas adoram rótulos: Pobre, Rico, Feio, Gordo, Preto, Mulçumano, Gay, Drogado, Divorciado e etc, mas etc mesmo! Etc real, com o valor inteiro do etc! E a isto, a esta preocupação escravizada da opinião dos outros: vizinhos, amigos, inimigos, primos, pais, tios, intitulamos de ser social, viver social, que é como quem diz, hipocrisia. Dizem “Não vivemos sozinhos”, pois… é certo, mas… por que razão temos de fazer depender a nossa vida às opiniões alheias? Se não são elas a nossa própria vida, a nossa própria opinião, a nossa própria crítica ou razão, por que raio têm elas de interessar? Pois… mas… “é a vida…” O Tanas! Bem, mas há opiniões e opiniões. Há as opiniões do alvo… Ai o alvo, o alvo… E essas sim, essas podem ser acutilantes, devastadoras, arrebatadoras! O que é o alvo? O alvo é o alvo! O alvo é a pessoa e dentro dessa pessoa pode ser objetivo, pode ser devaneio, pode ser preguiça, pode ser aventura, viagem, ou Amor... O alvo é o amor. Os alvos, em determinados momentos, não deveriam ter nem boca, nem língua, nem dentes. Os alvos deveriam ser só ouvidos e olhos. Olhos arregalados, é certo, expressivos, é certo, mas calados. Olhos calados. Dever-se-ia decretar um artigo de cidadania que inflige-se a norma social que determinasse, em megafone absoluto de decibéis de Amor:

"Toda e qualquer pessoa em situação de alvo (mesmo que apanhado despercebido) deixa de ter boca, língua e dentes e passa a ser olhos calados."

Isto era uma maravilha! Assim tudo seria mais fácil, o mundo das pessoas seria todo mais feliz, porque todos saberíamos que, em determinado momento da vida, seriámos alvo ou teríamos um e quando isso acontecesse não havia cá orgulho, ou nervoso miudinho, ou más figuras perante aqueles outros que nem sequer gostamos e cuja opinião fazemos de conta que interessa. Na realidade não nos interessa para nada, aliás nem sequer é encarada como opinião ou crítica, porque opinião ou crítica é saber, não é ignorância. A opinião ou crítica não aprisiona, liberta sem freios, receios, sem rótulos. Assumindo a situação de alvo, aguardaríamos serenamente o desfecho. Saberíamos de antemão que: os alvos não poderiam comer, trincar, lamber ou falar. Seriam apenas bons ouvintes, bons observadores e, essa riqueza rara e preciosa, silenciosos. Assim, sim, haveria evolução da espécie.


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