Eunice Pimentel

Sonho ou talvez não


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Salvador Dali

Apetecia-me viver qualquer coisa Histórica... acordar de manhã e ensinar aqui perto de casa, não ter de pegar no carro para nada, não ter de alimentar barões de ouro nem negro, nem amarelo. Acordar de manhã,levar a minha filha à escola sem me sentir escrava da marca da mochila ou das sapatilhas ou das calças, não me sentir mal por isso, por ser forte e querer contrariar as tendências do fútil e do capitalismo que corrompe. Olhar para o lado e dizer bom dia aos transeuntes com sacos da mercearia, aliás cestas de vime. Todos a olharem-se e a sorrirem-se de igual para igual. Os relógios com um tempo quase parado, um tempo sem pressa para nada, um tempo zen. Todos a viverem-se, a olharem-se, a sorrirem-se iguais, nem pouco nem menos, iguais, nem muito, nem tanto, iguais. As pessoas felizes a terem nome, a serem apenas o que eram: gente e com um nome. Felizes. Donas apenas de si. Apetecia-me viver qualquer coisa importante. Apetecia-me viver a justiça social, a igualdade de direitos, a ausência de cobiça e ambição desmedida. Apetecia-me pessoas, gente com nome. Gente.

Sobre o sonho tanto pode ser dito, são tantas as opiniões. Para uns, pode-se viver sem sonho, para outros o sonho é o motor da sua vida, da vida de todos. Para mim, se o Homem não sonhasse nada daquilo que o rodeia seria concretizado, portanto sem esta matéria inconcreta e absoluta que nos permite o sonho e o sonhar, a vida desceria ao miserável estado do real. Sonhar de olhos abertos e de sorriso nos lábios permite brincar, colorir o mundo.

Em homenagem a todos os sonhadores do mundo, especialmente aos do meu país "à beira mar plantado e em particular a um "sonhador incorrigível" que partiu no dia seguinte às celebrações do 25 de Abril.

Boa viagem, Miguel Portas...


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