Eunice Pimentel

A ilusão de acreditar


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Todos me avisam. Todos me dizem. Todos falam. Barafustam. Alegam argumentos válidos. Acusam argumentos, igualmente válidos, e eu acredito. Todos gritam ”Abre os olhos!”. Abro os olhos. “Abre os olhos!” E eu, embora os mantenha abertos, cego-os, propositadamente, à ilusão, ao acreditar e penso o acreditar mas acredito. “ Eu acredito!”. Avanço. Todos apontam o dedo. Enumeram defeitos onde vejo virtudes. Desconhecem o que eu conheço e apontam o dedo, meneiam a cabeça em desaprovação. Meneiam a cabeça. Sacudo os ombros como quem expele a indiferença. Sacodem os ombros como quem expele o cuidar. Sacudo os ombros e avanço. Avanço levitando de costas e vejo-os longe, longe, longe a afastarem-se, tão longe a afastarem-se e eu a acreditar, perto e a acreditar. Perto de um lado que não sei qual é. Perto de um local que desconheço ou conheço, não sei bem, mas acredito. Avanço. Avanço para ilusão do acreditar. “Quero tanto, tanto tanto… faço tanta força, mas acredito e acredito.” Ainda os ouço escarnecer da inocência. Ainda vejo o sorriso indulgente ou piedoso, depende da mente de quem o desenha, arreganha, projeta, calcula, pela inocência da humanidade que me habita. A inocência é pecado e a humanidade também. Os espertos, cegos de egoísmo calculado, não são bons, nem humanos, são espertos. “Abre os olhos!” Abro os olhos. “Abre os olhos!” Avanço. Todos somos deixados à nossa sorte e a sorte são cordelinhos do Além. Uns são abençoados e presos a cordelinhos de bondade e sofrem porque outros sofrem, porque outros estão doentes, porque outros têm fome, sede e morrem em vida, morrem no abandono que é a vida. Outros são abençoados de mal crença e apesar de estarem presos pelos cordelinhos, vivem como se fossem donos dos cordelinhos, como se os vendessem, como se fossem o seu negócio e vivem como se o mundo fosse apenas deles, iguais aos deles, para eles. Vivem a ilusão de um mundo pré feito de coisas. Outros ainda, os infelizes, sem cordelinhos que os prendam, deambulam nos estreitos labirínticos de uma outra vida. Uma vida negra, debaixo da terra. Largados jamais se encontram, estão sentenciados à perdição. Mutantes dos humanos, rosto feito de olhos apenas, o resto é uma massa de carne com odor a sangue. Não têm mãos sequer para gatinhar e como as pedras, permanecem inertes no chão. Na estrada reta de asfalto que afunila à minha frente, encaixo-os a todos no túnel que espelha o céu amarelo que nos pinta as sombras. Fecho-os com portões que pairam no amarelo infinito que nos circunda e avanço. Sentada numa nuvem avanço a acreditar. Descalça, desço da nuvem, observo os portões lá no longe longínquo e sinto a terra nos pés. Imprimo os pés na terra que me enche de um pó amarelo. Olho para os pés amarelos, para o pó amarelo e para os passos impressos na terra. Calco-os ao contrário. Cerro os dentes, as mãos. Enterro as unhas na carne. Sinto o corpo e o pensamento como um corpo. Calco-os no inverso do meu sentido e avanço. Avanço a acreditar, mas sinto o corpo e o pensamento como um corpo.


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