Eunice Pimentel

Sobre os erros humanos diz-se que é humano


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Esta questão de ser humano é uma questão delicada porque, vejamos, humanos todos somos. Afinal todos temos, ou pelo deveríamos ter: perninhas, bracinhos, cabecinha com ou sem cérebro, corpo com ou sem coração, mãozinhas, olhinhos cegos ou não. Sobre a cegueira, já dizia António Vieira, nos seus Sermões “Esta mesma cegueira de olhos abertos divide-se em três espécies de cegueira ou, falando medicamente, em cegueira da primeira, da segunda, e da terceira espécie. A primeira é de cegos, que veem e não veem juntamente; a segunda de cegos que veem uma coisa por outra; a terceira de cegos que vendo o demais, só a sua cegueira não vê”. Pobres dos cegos de olhos sadios... é que os outros são gente que nutriu outro sentido qualquer e aprendeu a viver com aquilo que a Natureza lhe deu ou melhor, com aquilo que a natureza lhe tirou. Afinal, são cinco os sentidos, bastantes, creio, para que possamos determinar o Bem e o Mal. Esta questão do Bem e do Mal também é delicada, porque se não definirmos, não soubermos, não conseguirmos, formos incapazes de perceber o quão humano podemos ser, não saberemos, não conseguiremos, seremos incapazes de perceber o quão Humano podemos ser e isso é redutor, tão tristemente redutor… Esta coisa de “o quão humano podemos ser” implica tudo, não só o esteticamente bonito e delicado, os bracinhos, as perninhas, a cabeça com cérebro ou não, o corpo com coração ou não, mas também tudo o resto: o pensamento, o raciocínio, a força capaz de fazer e agir. Uma vez ouvi uma frase muito importante para mim, não que o seu conteúdo fosse valorizado, mas porque desvendou a desumanidade que pensava inexistente no mundo, pelo menos no meu mundo. Hitleres, Riveras, LukashenKos, Hwans, Sadats e por aí fora não são bons exemplos de Seres Humanos. São espécimes dizimadores da raça humana, portanto, não devem ser esquecidas, porém também não devem ser mencionados quando se discute humanidade, principalmente enquanto se discute humanidade! Essa frase desvendou um lado das pessoas que desconhecia e do qual me afasto, fujo a sete pés, porque é tão triste ser humano assim. Fui cega. Cega de olhos abertos. Errei! Essa frase marcou-me, foi um ponto de viragem no meu Ser Humano. Marcou-me infinitamente pela negativa, entristeceu-me reconhecer tão perto de mim, numa voz, o ódio.

“Não ajudo! Não ajudo e demoverei toda a gente de o fazer! Não ajudo!”

Não queria acreditar que o Ser Humano pudesse ser assim tão escrupulosamente pequenininho, preciosamente perfeito, incapaz de errar. Até aqui acreditava na frase errar é humano e pensava que todos erravam, que seria esse também mais um dos degraus do nosso próprio crescimento. Mas não, há pessoas perfeitas por aí! Eternamente sóbrias de si constatam a sua perfeição, a sua incapacidade de errar e sóbrias de si, amputam mãos e pernas, amputam o próprio cérebro e o coração. Eternamente sóbrias. Sóbrias revelam a sua perfeição e incapacidade de dar a mão, pois se não as têm… Sóbrias.

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Zango-me com isto, enfureço, grito, barafusto, esperneio e escrevo, mas não consigo mudar o mundo e muito menos as pessoas humanas. Desde muito nova que ouço esta frase “Não podes mudar o mundo” e ouço outra também “Errar é humano”. Eu erro, desculpo quem erra, erro, tento não julgar, mas erro, tento compreender e erro. Acima de tudo tento Ser aquilo que a natureza me ofereceu: Ser Humana. Sei, acredito sabendo que tudo quanto eu oferecer, a natureza me retribuirá e mesmo que não ofereça nada, mesmo que sejam apenas lições, já me sinto grata, suficientemente grata por estar aqui, por me ter oferecido a capacidade humana de errar. Sóbria reconheço isto e sóbria vislumbro as duas mãos, as duas pernas, a cabeça, os olhos, o corpo, mais ainda, sinto, penso e sinto pensando as duas mãos, as duas pernas, a cabeça, os olhos, o corpo. Sinto pensando o coração.

Imagens de Choi Xooang


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