Eunice Pimentel

A Crise


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As pessoas andam chateadas com a vida. Já não é apenas aquele queixume próprio do português que nunca está bem de todo, está sempre “mais ou menos”, nunca vai bem de todo “vai indo”. O português gosta de se queixar. Queixa-se da sua vida, queixa-se da vida dos outros, queixa-se. É um hábito cultural queixar-se, mesmo quando não há motivos. Sobre o que se conversaria, se não houvesse queixas?

Vejo e vendo, reparando, observo os semblantes carregados das pessoas. Sento-me numa esplanada e ouço conversar sobre a crise. Sento-me noutra e conversa-se sobre a crise. Nesta busca de esplanadas outonais, caídas e cinzentas, apercebo-me que a conversa será sempre a mesma. O som de fundo da minha leitura na esplanada será sempre o mesmo, será a crise. Esta música cansa. As pessoas soltam palavras. Austeridade, Irs, aumentos, Passos, cortes, Gaspar, coligação. Austeridade. Cortes. Aumentos. E eu canso-me disto. Primeiro fervo com isto e depois canso-me (como quase tudo o resto na minha vida). A rotina do mesmo é uma canseira. É que esta música está mal ensaiada, as palavras saiem desafinadas, desalinhadas, estridentes, sem ritmo, alento, coração, alma. Música é ritmo, coração e alma. São palavras Vazias porque no fundo importa a vidinha, ir-se indo, estar-se mais ou menos.

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Conversa-se do que se ouve nas notícias, faz-se uns comentários mais ou menos, chama-se uns nomes aos políticos e vai-se indo. E eu que fervo com isto, que já fervia com isto, que sempre fervi com isto de não arrumarmos os nossos assuntos Lusitanos e sermos europeus, Lusitanos a querer ser europeus, europeus de faz de conta, porque a alma é lusitana, adormecida, mas lusitana, eu fervo com isto: alma corrompida a europeia. Queixam-se de quê? De nos cobrarem por termos vendido a alma? Desarmamo-nos de escudo e agora somos apenas corpo europeu. Queixam-se de quê? Corrupção? Mas se todos os dias nos vergamos mais um bocadinho, é só mais este bocadinho e nos habituamos a lamber mãos. Queixarmo-nos? Nós deixámos ao acreditar na ilusão da facilidade que nos vendiam.

A minha avó mulher terra, minhota, de início do século XX diz não haver mais homens de honra que morriam pela Pátria, diz que já ninguém sabe o que custa ter uma batata no prato. Custa suor, custa calos. Diz que cavar é uma arma para a crise que ainda agora começou. Diz não haver honra. Fome. A minha avó conheceu a fome e teme-a. Para si a crise resume-se a isto: medo da fome porque há homens sem honra no país, neste país lusitano que agora é apenas corpo, sem escudo, corpo europeu.

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