Eunice Pimentel

nigerrimu horrendus

“ Eu quero amar, amar perdidamente
Este, aquele, o outro e toda a gente
E não amar ninguém”

Florbela espanca


picasso-weeping-woman-1937.jpg Picasso 1937

Dei por mim a pensar. Enquanto tomava banho, aquele banho depois do ginásio, depois daquela atividade em que se passa as barreiras do físico e pelo cansaço se sente a dor, o prazer da dor, a dor dos músculos contraídos pelos movimentos cadenciados cuja intensidade cresce, cresce mais e mais pela interiorização da música que ritma o ritmo do coração, do pulsar do sangue do coração e transforma o excesso em leveza… [Por que é que todo o excesso satisfaz?]pensei...

Dei por mim a pensar… em quê mesmo? Ah o ginásio… não, o banho depois do ginásio que, embora me descanse o corpo, disfarça apenas o desgaste da mente e, mesmo aí, no momento em que o quente da água me domina e me o torna vermelha e mole, eu penso: penso; penso e penso. Penso nas cores com as quais pintaria a minha vida e chego à conclusão que pintá-la-ia de negro - nigerrimo horrendus - pela tristeza, pela angústia constante que a preenche, por todas as hesitações, incertezas, insatisfações. Um luto. Um luto em luto por uma vida que ainda não chegou a morrer, permanece viva, penosa sobrevivente, vidente do fim. Por vezes entra em autocombustão e arde inteira, desfaz-se em cinzas, porém tudo volta e volta e volta como um carrossel de sonhos [des]feito. Pára apenas no girar da tontura e volta. Volta mais angustiada, mais grotesca, mais desconfiada, mais insatisfeita, indecisa, incompreendida, insegura, infeliz. Atenção. Momentaneamente infeliz. Sim, porque o estado de permanente infelicidade ou é doença ou devaneio, ninguém o é sempre, até poderá parecê-lo, mas não o é, de todo. Assim como ninguém é permanentemente feliz, isso é reclame de fachada, publicidade enganosa. [como eu odeio os infelizes que se tomam de superiores com o galhardete da sua imensa, intensa e permanente felicidade!] A felicidade permanente é um perigo porque é a camuflagem real de sentimentos vis e submersos de desdém, não aguenta os momentos felizes dos outros, porque os quer também para si. A felicidade permanente quer tudo! Tudo o que se veja e toque. Tudo. A infelicidade permanente é um perigo, porque exibe tudo. Tudo o que se sente, tudo o que vive e isso é isco para o mundo. Se o mundo calca o permanentemente infeliz claro que este vai tentar a felicidade e procura a morte. Simples. A morte é sempre o caminho feliz para os permanentemente infelizes.

Vida. A minha vida vou pintá-la de vermelho vivo, vermelho sangue, em carne viva, incandescente, absolutamente encarnado, escancarado ao fatalismo das circunstâncias. E penso. Penso na razão pela qual toda a minha vida está vestida deste fatalismo vermelho e por que estão os outros que me circundam vestidos como eu.

Dispam-se! Despe-te!

Quero pinceladas de branco puro, singelo e angelical a escorrer nesta minha tela amarela que grita com a boca cosida pela paz há tanto prometida. Amor. Apertem-me o corpete, endireitem-me as costas, puxem-me bem os cordéis, que seja qual for a cor escolhida, susterei a respiração e deambularei por entre a gente do mundo. Crente, demente, de peito aberto, erguida, de olhar fixo, em luta pelo meu lugar, de arco e flecha, besta sôfrega. Feliz. Momentaneamente feliz.


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