Eunice Pimentel

Crónica sobre o sorriso da criança

O sorriso das crianças é a aproximação mais concreta que podemos ter com o divino. Nelas o sentido das coisas é simples e prático, mesmo quando nos afogam nos porquês do seu próprio conhecimento. O sorriso das crianças transparece o seu superior interesse. A sua voz de criança foi ouvida, a sua opinião de criança compreendida e sorri com dentes de criança feliz.


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Ouvimos tantas vezes entre conversas de banco de jardim ou de café: “As crianças não pediram para nascer”. Crescemos. Crescemos primeiro por fora e depois por dentro, muito depois por dentro e num ou noutro ponto do nosso crescimento, num ou noutro ponto temporal da nossa existência diremos “Não pedi para nascer”. Pois não. As pessoas não pediram para nascer, porém nascendo, sendo pessoa, resta apenas respeitar e ser respeitada em todos os poros de dignidade da sua natureza. É assim. Tem de ser assim. Ninguém pediu para nascer. À medida que vou crescendo por dentro tenho cada vez mais a certeza que aos pais que pensam ter filhos ou aos pais em idade de reprodução (seja lá o que isso for) se deva pedir exames psicotécnicos detalhados. Se meça rigorosamente o QI, sobretudo se meça rigorosamente o QE. A ciência devia avançar nesse sentido. Conheço pais que, além de não terem pedido para nascer, tem uma incapacidade extrema em dar e portanto são incompetentes na sua missão parental. Só é capaz de ser Pai ou Mãe quem consiga inadvertidamente dar. Dar simplesmente, da forma mais primitiva e altruísta. Dar é entrega. Dar é transmitir. Dar é atender. Emitir. Favorecer. Gratificar. Oferecer. Participar. Proporcionar. Dar. Conheço outros pais que, além de não terem pedido para nascer, nem sequer são pais sendo, mas são. Sofrem porque os acusam de não ser e portanto o seu papel pode ser nulo. Sofrem porque não são, mas gostavam de ser e pensam que têm mais direito de ser pai ou mãe que outro qualquer porque a sua natureza é essa, talvez por isso tenham nascido mesmo sem ter pedido. Tudo seria mais simples, porque a vida faria assim mais sentido. Mas não. Tudo é complicado e a vida prega das piores partidas. Defendo que se a ciência avança tanto, tão desmesuradamente, ao ponto de criar armas que podem destruir o Planeta em poucos minutos, tem a obrigação eminentemente urgente de avançar no sentido de melhorar a capacidade humana dos pais e das mães. A genética avança e faculta-nos dados de há milhões de anos, mas não discrimina, no nosso presente do agora, no minuto este que passa no instante, os genes necessários para o sucesso da parentalidade. As crianças não pediram para nascer. A ciência tem obrigação de não se desligar da massa corpórea que compõe cientistas, matemáticos, físicos, químicos, astrónomos, antropólogos, sociólogos e descobrir o gene do mau pai, da má mãe e aniquilá-lo. Que me interessa a mim a arma que destrói o Planeta em poucos minutos, que me interessa a mim a suposta vida em Marte, o faraó podre com milhões de anos, se aqui na Terra, neste agora cru há crianças a questionarem-se “Porque é que eu nasci?”, a sofrerem “Eu não pedi para nascer, ”a morrerem “Porquê?” nas mãos de quem as semeou ou pariu?

E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos? Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar?

Saramago José, A maior flor do Mundo


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