Thiago Nelsis

"Embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha."

A Instituição da Mentira

Ensaio literário sobre a sociedade humana e a relação íntima que há entre o conservadorismo puro e simples, as instituições, e a mentira propriamente dita, como bases de coesão humana. Aborda a evolução social e o modo como nossa cultura pode estagnar para preservar costumes e rituais que há muito já perderam o objeto.


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A sociedade organizada está constantemente transformando-se, aprendendo e, vez ou outra, evoluindo. Estamos percebendo (muito recentemente, tardiamente) o verdadeiro valor de muitas coisas; em nosso tempo os questionamentos – embora nem sempre populares – já fazem parte do crescimento nosso e do mundo. Porém há atrasos em encontrar uma visão das coisas que tenha a coerência como sustentáculo fundamental, de modo que muitas coisas continuam a fazer parte de nossas vidas “porque são” – ficam numa área de imunidade em relação a ser questionadas a tal ponto que diversas pessoas sequer as considerariam questionáveis.

Ao longo dessa nossa “corrida evolutiva” fundamos instituições das mais diversas – essas teriam a utilidade de preservar o que funcionava e criar ainda alguma coesão social. E logo o mundo se tornou demasiado institucionalizado. Nossa própria percepção das coisas olha o mundo através de lentes institucionais; estamos cercados de tradições, de morais estáticas que não nos servem mais, não nos ajudam a crescer e nós nos agarramos a elas, não as deixamos ficar para trás. Há de se distinguir, é claro, antes de se falar no conservadorismo propriamente dito que este é diferente da simples preservação daquilo que está e permanece presente em nossas vidas por não ter se inadequado a quem nós somos.

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Nossos comportamentos aparentam ter uma tendência para o ritualismo de modo que algo feito por muito tempo não pode deixar de ser feito (como se isso fizesse desviar no cosmos o curso dos astros). As instituições de inibição de comportamento – as moralizantes – têm sua irrefutável defesa nos defensores ferrenhos da moral estática; a moral estacada em um mundo que, inevitavelmente transformável, o quer paralisar por medo. Ao contrário da preservação cultural – que não impede o novo –, o conservadorismo é covarde, e treme sempre diante do futuro, do desconhecido.

O homem – que não pelo suposto medo da desordem, mas por mesquinhez – um dia fincou bandeiras e disse-se dono da terra, e dono dos outros homens, e inventou o Estado; amparado (e valendo-se de maneira pérfida do medo desses homens do desconhecido) na Religião organizada. E da mesquinhez do apego ao patrimônio, do desejo de preservá-lo, nasce o casamento – ótica essa que tira mesmo a Família do seu espaço de privilegiada nobreza no mundo das instituições.

A Família funcionava como uma filial de condicionamento da Religião e do Estado já forçando nos indivíduos mais novos os ideais de obediência e resignação que fariam que o jogo de instituições perseverasse. Criamos, então, uma sociedade que nos aprisiona, mas que defendemos sem questionar – nasce o inimigo do lado de cá e de lá da fronteira inventada (que separa homens iguais); e passamos a fazer parte de algo que sem nós não existiria, mas que decide sobre nossa vida, sobre nossa morte, sobre nossa individualidade.

Na institucional Família primitiva (da qual ainda há abundantes resquícios culturais) havia entre os indivíduos não mais o velho espírito de colaboração do mundo natural, mas distanciamento e hierarquia, a mentira e a imposição da obediência a essa e às outras instituições. A mentira tornou-se enfim uma instituição também. A instituição através da qual tudo mais se pôde institucionalizar – tornar-se não só aceito, mas estático –, e semear nas pessoas o desejo de não mudar uma realidade que é na verdade indesejável.

As crianças nascem em um mundo de mentira para lhes preservar (por um intervalo ínfimo) alguma inocência; mentimos para agradar aos amigos; mentimos para conseguir ou não perder um emprego; cultuamos a mentira a tal ponto que esta mereceria um templo se não mentíssemos sobre o quanto mentimos. Mentimos até para parecermos mais competentes em relação a viver a vida (o que definitivamente não somos).

E em um mundo tão doentemente institucionalizado, como não poderia ser diferente, as bases fundamentais de tudo que somos condicionados a acreditar são devaneios. Há muito tempo viver não é uma arte sincera, mas uma mecânica mórbida. O mundo institucional não está pronto para conviver com a verdade humana porque a tem negado desde a primeira sociedade organizada. Indivíduos são complexos e nossa vivência não permite aprender a maturidade necessária para se saber lidar com isso.

Apesar disso, o risco de enfrentar todas as verdades ocultas que o mundo social, criado pelo homem, se empenhou em esconder deve ser enfrentado se queremos crescer como indivíduos (e como grupo, inclusive). Um homem que não mente para si se conhece, e este homem estará apto a conhecer seu semelhante com todas as diferenças que este venha a trazer.

Não haverá modelo ideal capaz de resumir um homem a uma pequena lista de virtudes escolhidas, pois somos indefiníveis – somos livres. E talvez seja a nossa própria falta de liberdade (foi tirada de nós) que crie o desejo, sempre presente no homem comum, de restringir a liberdade do próximo. Mesmo a mais feia verdade, se encarada, será mais valiosa que a mentira bela – e é mais fácil lidar com um defeito conhecido do que com uma qualidade que não se tem.

Seria com certeza um desafio! Imagine admitir seus medos, suas falhas, tudo aquilo que não enobrece… por outro lado, quem é assim tão nobre que consigo não compartilhe essas mesmas falhas? Até a pior verdade nos aproxima uns dos outros e de nós mesmos, e possibilita trabalhar o que não está bem ao invés de fingir que é outra coisa. Um covarde que se diga forte mil vezes, sem conhecer seus medos, nunca será mais do que um covarde.

A boa mentira não é boa, não protege nada nem ninguém, ela apenas permite que a sua liberdade lhe seja roubada, enquanto todos à sua volta entoam a mentira pérfida que diz: “você é livre”. Você não é livre.


Thiago Nelsis

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