Thiago Nelsis

"Embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha."

o bom suicídio

Ensaio sobre a busca por individualidade, liberdade e a autêntica realização pessoal, que exige ação e revolta contra o padrão de comportamento e cultura vigentes. A felicidade humana retratada não como produto de consumo, ou estabelecida dentro de um padrão uniformizável e geral, mas interna, de modo que cada indivíduo deve conhecer-se para poder ser pleno.


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Estamos todos em busca da suposta realização pessoal, a felicidade (cada vez mais difícil de conceituar) é buscada como aquilo que reside sempre em um futuro que virá, mas não vem. Talvez sejamos negligentes com o que queremos e, aos tropeços, seguimos em busca do que deveríamos querer, por imposição externa. Ou deve haver uma fórmula universal para estar satisfeito e somos, por acaso, todos (exceto os canalhas que mentem muito) indizivelmente incompetentes para segui-la.

Vou arriscar a primeira hipótese. Somos negligentes, preguiçosos com as nossas necessidades essenciais; embora achemos estar sempre em busca dos nossos interesses, fazemos invariavelmente o contrário disso. O homem é um ser contextualizado, muitas vezes vítima da cultura de sua época, que celebra como seus os conceitos que lhe foram passados, gravados em si através de repetições que vão do opressor ao profundamente entediante – e estar de acordo sem questionar é se deixar morrer.

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O verdadeiro sucesso pessoal (realizar-se consigo) nunca é para cima, nem para frente – ele avança na contramão –, tenho certeza disso. Você não se conhece como indivíduo até que tenha, vez ou outra, se entregado a determinado impulso ou cometido alguns desperdícios. Para ser uno consigo é preciso alguma coragem que só alguma inconsequência e algum desregramento podem trazer: não é verdade que o pássaro, para voar pela primeira vez, deve jogar-se do ninho num gesto que parece imitar o suicídio?

Esse pode ser, talvez, o bom suicídio. Uma espécie de desdém pelo modelo de conforto padrão. No bom suicídio, morre em você aquilo que já não contribui para o seu verdadeiro ser; em um gesto aparentemente descuidado (o pulo metafórico do pássaro jovem que abandona o ninho para ganhar os céus), coloca-se em risco justamente tudo aquilo que já lhe é insuportável e, se você tiver sorte, você o perderá. É preciso então matar-se para renascer, para ser (pela primeira vez) plenamente ser. O risco, na grande maioria das vezes, é ínfimo se comparado à agonia de não prosperar consigo jamais.

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É preciso suicidar-se, talvez, porque o verdadeiro “eu” de cada um está mais além do que estamos habituados a enxergar. O sistema de sociedade e convívio faz de cada um de nós, antes de indivíduos, um grande coletivo (e não haverá exagero algum em usar a palavra arrebanhados, pois é assim que estamos, assim é que sempre estivemos, em geral). O pensar parecido facilita o convívio entre as pessoas, sou capaz de apostar que essa tendência tenha surgido através alguma necessidade evolutiva. Pois bem, evoluamos novamente; as tribos selvagens não são mais a nossa realidade: sejamos livres.

Experimentemos, por exemplo (para elucidar esse pensamento “tribal”), em conversas banais de filas de banco, de paradas de ônibus, dar uma opinião realmente sincera – não banal – sobre aqueles assuntos que fazem das paradas de ônibus e das filas de banco o próprio purgatório para aqueles que detestam o lugar-comum: expressões pouco amigáveis surgirão invariavelmente.

O homem do coletivo é quase sempre hostil com aquele que destoa do grupo. “Suas opiniões não merecem ser sequer analisadas, deve ser um louco, é com certeza imoral” – a moralidade pura e simples tem sido sempre a ferramenta chave para arrebanhar indivíduos –; pensará assim, com hostilidade, imediatamente o homem do coletivo ao vislumbrar a mera possibilidade de se contrariar as verdades banais do dia-a-dia.

O homem comum encontra sua segurança e afirmação como ser nessas tolas “verdades”. A supressão pelo coletivo das individualidades destoantes do grupo parece ser uma prioridade social – questão de segurança pública –, a sociedade primitiva e a nossa possuem em comum a característica de, quando possível (diga-se sempre que possível), usar violência para suprimir ideias que destoam da maioria.

Mas somos absolutamente iguais em uma coisa, eu garanto, seremos todos, cedo ou tarde, cada um de nós, comida de minhoca debaixo da terra; creia você no que quiser. A vida é um intervalo único, brevíssimo, e sermos membros de uma espécie pensante (a única de que temos conhecimento no mundo) nos obriga a deleitarmo-nos com esse intervalo, ao mesmo tempo que nos impõe elevar nossos padrões; deve-se beber plenamente a vida que vai acabar. É imperativo desenvolver-se, é imperdoável não individualizar-se.

Nosso bem precioso enquanto seres é a felicidade; e esta, ao contrário do que somos levados a pensar por todos os meios, está dentro de nós e mais além. Cada homem é a medida de si e só se sentirá plenamente realizado quando viver plenamente essa verdade, com todos os empecilhos que a decisão de ser livre puder trazer. A existência pode ser uma verdadeira dádiva, mas uma dádiva que exige esforço interno para ser plenamente desfrutada. Em breve não estaremos aqui e possivelmente não deixaremos nada, então por que não nos permitimos desfrutar do intervalo?

_Pobre homem preso ao chão, se de asas soubesse fazer sua dor, dele seria o céu, muito mais que dos pássaros.


Thiago Nelsis

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