Thiago Nelsis

"Embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha."

os olhos de um cão

O cão do desenho possuía um olhar tão humano... tão humano que em seus olhos tristonhos cabia toda a humanidade, resumiu-nos a um animal invisível como ele, que perambula acuado. Entre nós e nossa individualidade mais profunda, entre nós e nossos sonhos possíveis e impossíveis está o olhar do cão. O olhar de aparente medo era na verdade uma lente acusadora, e mostrou-nos os miseráveis que, de fato, somos.


olhos do cão.png (Art by Estela de Menezes)

Vi hoje um retrato – na verdade um desenho – de um cão, aparentemente um desses que se vê na rua, com o pelo desgrenhado e um aspecto um pouco sofrido. Foi incrível o quanto esse cão tinha a dizer sobre todos nós; todos os cães do mundo pareciam rir de nossa tão elevada natureza dita evoluída, denunciando-nos como espécie, revelando-nos por dentro.

O olhar do cão desenhado trazia um misto de medo e necessidade: para mim foi como se ele visse uma poça d’água, sedento, mas não se aproximasse por ver algum sujeito por perto e temer levar um chute ao se aproximar. Embora seja uma rotina para os cães de rua, é dos homens que eu falo, pois o olhar do cão acuado é na verdade o nosso próprio.

O pensamento veio de duas lembranças bastante simples, sendo a primeira um mini ensaio (provavelmente incompleto até o presente momento) que eu escrevia mais cedo, sobre como a cultura de nosso tempo molda nossa personalidade do modo mais individual e íntimo; a outra lembrança foi um trecho da biografia de Trotsky, quando aos 10 anos de idade revoltou-se (e a turma junto com ele) contra uma severa punição praticada pelo professor a outro aluno – Trotsky descobriu, graças às consequências do ato rebelde, o efeito do medo sobre o caráter e a conduta humana.

O cão sintetizava as duas coisas; por ser uma criatura simples quando comparada ao ser-humano, o animal revelava com tamanha pureza os efeitos sofridos pelos dois fatores (cultura e medo) ao longo de sua caminhada curta, ao mesmo tempo em que reduzia nossa complexidade de modo assustador. A cultura e o medo nos moldam como molda o cão, nosso caráter é fruto de alguns poucos ensinamentos e de muitos altos e baixos, que provavelmente transformam a nossa própria coragem.

Aquele cão, que sofria com a sede e ao mesmo tempo com o medo de beber a água, somos nós – é o nosso dia-a-dia, ele reflete não só a nossa covardia em relação a perseguir e embriagar-nos de nossos próprios sonhos –; ele também aponta para os fatores que nos tornam iguais, unos com o pobre vira-lata. É sabido que aquele cão, se tivesse vivido outras circunstâncias, não teria medo de matar sua sede; infelizmente, nós também não...

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