forma e conteúdo

Análise despretensiosa dos prazeres estéticos.

Carolina Rodrigues

Carolina Rodrigues estuda Filosofia, mas sabe que está no curso errado. Fala sobre Artes com a mesma autoridade de quem pintou o céu de Monet, pois o segredo é parecer convincente

O que Edward Hopper, Merleau-Ponty e a Arte têm em comum?

É por meio dos sentidos, de uma forma indivisa, que o sujeito entra em contato com o mundo exterior. Merleau-Ponty, filósofo francês, diria que através do olhar questionamos primeiramente as coisas, mas que devemos ver o corpo como um sistema aberto.


excursion into philosophy.jpg E. Hopper, Excursion into philosophy.

Na Arte, por exemplo, os sentidos são trabalhados de modo integrado. O artista e o espectador experimentam de forma simples como se dá a compreensão destas manifestações sensíveis.

Mas como uma obra de arte nos permite este exercício perceptivo?

Se pensarmos nos órgãos sensitivos como parte indivisível de um sistema constituído de mente e corpo, veremos que o espectador, no momento de apreciação, incorpora-se à própria obra. Percebe-se que não se pode dissociar a forma de sua significação, como se esta fosse exteriorizada. Ela se complementa através dos outros sentidos, de como a percebo e me comporto diante dela. Dessa forma, perceber a arte é desvelar o segredo dos sentidos da própria realidade.

hotel room.jpg E. Hopper, Hotel room.

Esta conexão do espectador com o objeto artístico faz com que a arte, ainda que reproduza o mundo a sua semelhança, não seja a explicitação de um ser prévio, a concepção de uma pré-existência, mas sim, a fundamentação do ser.

Na pintura e fotografia, apesar da referência à coisa natural, o artista não cria o mundo tal como ele é. Ele transfigura a arte numa coisa em si. A partir do momento da criação, a obra se desrealiza, do contrário, seria apenas o retrato da vacuidade de um objeto qualquer. O artista delineia suas ideias antes mesmo do momento que antecede a criação, o que não significa que isso ocorra num plano abstrato e à parte do campo sensível.

eleven am.jpg E. Hopper, Eleven a.m..

Se deve haver sentido na arte, este deve ser explicitado e entendido tanto na obra como na intenção do artista, pois é pelo corpo que ele desenvolve os elementos criativos. Ao observarmos os trabalhos do artista plástico estadunidense Edward Hopper, percebemos facilmente, sem que haja explicações para tal, as reticências da solidão, o silêncio quase ensurdecedor e a inércia de uma sociedade moderna que ele mesmo presenciou. O próprio artista dialoga com a sua obra. Dessa forma, ainda que houvesse uma intenção de assumir a arte como objeto que não reage às impressões físicas, não seria possível.

A interação do nosso corpo com o mundo é o ponto de partida para as percepções fenomenológicas na arte. Pois as manifestações precisam ser vistas e sentidas para que nós possamos apreendê-las tais como elas são.

A Woman in the Sun.jpg E. Hopper, A woman in the sun.

Como diz Merleau-Ponty, a Arte, a Filosofia e a Fenomenologia não existem para explicar a realidade, mas para nos fazer compreender o mundo como ele é constituído e todas as suas manifestações.

Apreciar uma obra de arte nos reconduz à reflexão do olhar comum que se desenrola na vida cotidiana. Ela salta através dos sentidos sobre o invisível, desejando clarear a essência da própria vida. Este é o grande desafio e angústia do artista, da arte e do espectador: saber-se que a subjetividade humana não pode permanecer numa alienação de si mesma.


Carolina Rodrigues

Carolina Rodrigues estuda Filosofia, mas sabe que está no curso errado. Fala sobre Artes com a mesma autoridade de quem pintou o céu de Monet, pois o segredo é parecer convincente.
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