fran bubniak

Fotografia, cinema, literatura e o que mais der na telha

Fran Bubniak

Curitibana que não gosta de frio, fotógrafa que não sai bem em foto nenhuma e jornalista que odeia o lead. Olé

Percepções, cidades e pastéis

Cidades como sistemas feitos para funcionar perfeitamente, pavê ou pacumê, feiras de fim de tarde e outras percepções numa barraquinha de pastel.


Curitiba.jpg Curitiba, vista do alto (Foto: Fran Bubniak, 2011)

Cidades são coisas incríveis. Sistemas perfeitos. Só não funcionam, às vezes.

Sempre gostei mais da cidade do que do campo. Nunca morei no campo, mas sempre achei que não conseguiria. Tudo numa cidade é feito para funcionar. Nas cidades, todos têm sua vez, e acho isso incrível. Baita sinal de organização! Sempre fui muito organizada também. Nas cidades, o sinal fecha para os carros e as pessoas podem atravessar a rua, e então o sinal fecha para as pessoas e os carros podem passar. Cada coisa no seu tempo. Lindo!

E as cidades têm praças. Lugares onde as pessoas se reúnem e os carros não podem passar. Só os da polícia, na verdade. E acho que ambulâncias, se precisar. E os carros da TV. Já vi carros de TV em praças. E as praças em Curitiba são feitas de petit pavé. Nem pavê nem pacumê, pra andar, caso você seja uma daquelas pessoas que faz piadas infames com a sobremesa.

Curitiba tem a "Praça do Cavalo Babão". Se falar "Fonte da Memória", ninguém conhece, mas se falar do Cavalo Babão, todo mundo sabe onde é. Um amigo meu chama de “o cavalo que vomita água”. Cada um vê as coisas do seu jeito. Certa vez, marcamos de nos encontrar perto do tal cavalo que vomitava, que eu ainda não conhecia. Na ocasião, pensei em selecionar melhor as amizades, mas aí me explicaram qual é a do cavalo e ficou tudo bem. No final das contas, prefiro “babão”. Ainda é deselegante, mas menos pior.

Na praça do cavalo babão tem pastel e tapioca nas quintas-feiras à noite. E quentão, se for inverno, mas tem que chegar cedo para comprar, porque acaba rápido. Não pode esfriar que curitibano já quer tomar quentão e comer pinhão. Não sei que graça tem pinhão. Respeito, é coisa nossa, do Sul, do Paraná, mas que não tem graça nenhuma, não tem! Talvez essa euforia toda porque pinhão é coisa sazonal. Só tem no inverno (aliás, tão bonita essa palavra, “sazonal”!).

Nessas ocasiões, na praça, na feira que acontece na praça, é possível perceber a variedade de pessoas numa cidade. Cada um imerso no seu mundo. Pare um dia para observar! Passa um de bicicleta, passa a moradora de rua falando sozinha, passa gente com tapioca, chega gente na barraca do pastel, o carro do vendedor de queijos e salames está lotado, passa outro de bicicleta, começa a chover e todo mundo tem que se apertar pra caber embaixo da tenda da barraca do pastel, a senhorinha compra verduras, chega o seu pastel, vem o rapaz que faz truques com o baralho e pede uma ajudinha para pagar o albergue, você finge que acredita, acaba o seu pastel, sua mão tá cheia de gordura e não tem guardanapo, nunca tem!, passam mais dois de bicicleta, e é gente indo e vindo, gente que para na feira, gente que passa pela feira, você já está cheirando a pastel, e o cavalo ali, babando.

Momentos de percepção na barraquinha do pastel.


Fran Bubniak

Curitibana que não gosta de frio, fotógrafa que não sai bem em foto nenhuma e jornalista que odeia o lead. Olé.
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