fugindo do lugarcomum

Do quarto 237 ao olhar do Grande Irmão

Hamlet Oliveira

Falar da mesma coisa é sempre muito chato.

Vozes em liberdade: os refugiados da Coréia do Norte

Um breve reflexo das tristes histórias dos habitantes da Coréia do Norte, realizado de forma magistral pela jornalista Barbara Demick.


Propaganda-Pic.jpg Mais que um presidente, para os norte-coreanos o "Grande Líder" Kim ll-sung era representado como o próprio sol.

Há alguns anos, enquanto folheava uma revista, me deparei com uma extensa reportagem sobre a ida de uma jornalista à Coréia do Norte. Lá, ela havia se deparado com uma sociedade fechada (não é à toa que o país recebeu o apelido de “o mais fechado do mundo”), onde seus cidadãos eram diversificados por classes sociais, apenas os selecionados pelos seus guias podiam conversar com ela e em momento algum a equipe foi deixada livre para explorar mais do que a rota pré-estabelecida.

Após esse primeiro contato com a história norte-coreana, comecei a procurar mais informações, até que me deparei com o livro-reportagem “Nada a Invejar: Vidas Comuns na Coréia do Norte”, da jornalista americana Barbara Demick. Neste livro, por meio de relatos de desertores do regime de Kim Jong-un, neto de Kim Il-sung, declarado presidente eterno mesmo depois de sua morte em 1994, temos uma visão intimista de como era a vida dessas pessoas em um país onde todos os países capitalistas são mostrados como vilões e repressores, incluindo a Coréia do Sul.

Mesmo com um regime agressivo, a vida dos norte-coreanos era relativamente tranquila na época dos auxílios da União Soviética, aliada comunista. No período, os cidadãos conseguiam viver ao menos com o mínimo: comida e abrigo, todos fornecidos pelo governo. E quando digo “fornecidos” falo literalmente, pois cada pessoa tinha direito a uma quantidade determinada de comida, sem excessos.

10426033016_e515af2e23_o.jpg Um dos diversos outdoors da propaganda norte-coreana. Seus líderes sempre são retratados como figuras míticas e livres de defeitos.

Com a queda do regime soviético, uma crise econômica fortíssima atingiu o país. Despreparado, sem aliados, com investimentos focados no campo militar, terras montanhosas e inférteis, logo a população se viu sem o já parco alimento que dispunha. Durante o período conhecido como “A Árdua Marcha”, cerca de 5% da população norte-coreana morreu devido à fome.

Em meio a tantos acontecimentos durante vários anos, nos são apresentados os personagens do livro, cada um com sua perspectiva e opinião em relação a sua terra natal. Aos poucos, a autora conta a história de cada um, sem pressa e com fortes detalhes, até o ponto de ruptura total, onde abrem mão até mesmo de seus familiares; tudo em busca de sua liberdade.

A variedade encontrada na personalidade de cada habitante retratado por Barbara é fascinante. Temos uma jovem e seu namorado, que aproveitam a crise energética para caminharem no escuro; uma senhora apaixonada pelo regime de Kim Il-sung, logo sua decisão de fugir do país surge apenas em momentos de profundo desespero; um estudante que busca apenas viver e aproveitar seus estudos, até perceber a triste situação de seu país.

113449040SZ.jpg Capa da edição brasileira(Companhia das Letras, 2013)

Mais do que nos apresentar as razões para as fugas, a autora constrói verdadeiros perfis de seus protagonistas, nos transmitindo todas as suas frustrações, medos e repressões que os levam ao limite.

Apesar de oficialmente serem referidos como “refugiados”, uma melhor definição para os personagens do livro seria “sobreviventes”. À medida que suas histórias tomam rumos infelizes como a de seu próprio país e atitudes cada vez mais extremas são tomadas, como comer casca de árvore, o leitor não consegue se desvencilhar dos personagens. Ao final da leitura, meu desejo era de conhecer cada um deles, de viajar a Coréia do Sul, para onde milhares de sobreviventes vão anualmente, e conversar sobre suas experiências e força de vontade.

Afinal, muitos perecem nas tentativas de fuga pela fronteira norte-coreana com a China. E todo reconhecimento deve ser dado a figuras tão corajosas.


Hamlet Oliveira

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