fugindo do lugarcomum

Do quarto 237 ao olhar do Grande Irmão

Hamlet Oliveira

Falar da mesma coisa é sempre muito chato.

Um amor de novela

Juntas há mais de 30 anos, Stella e Dotty se veem separadas após um acidente doméstico. Determinada a finalmente se casar com sua companheira de tantas décadas, Stella sequestra Dotty e, ao lado de um dançarino, partem em direção ao Canadá para finalmente selarem a união. Recheado de um humor simples, mas muito eficiente, “Tempestade na Estrada” é uma grande celebração ao amor.


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Se seu amor lhe escapasse, você não iria atrás? Lançada essa pergunta, com uma resposta bem óbvia, acompanhamos o desenrolar de diversas histórias com o mesmo tema, não apenas no cinema, mas também na literatura, teatro, tantas outras formas de se contar uma narrativa. Mas, para usar um clichê e não deixá-lo morrer, a principal atitude é sempre a mesma: mudar a abordagem.

Na história de "sequestro" e afirmação do amor em “Tempestade na Estrada”, vemos, em meio a tons quentes de verde e amarelo, a divertida e empolgante história de um casal de idosas. Stella (Olympia Dukakis) e Dotty (Brenda Fricker) moram juntas em uma casinha no interior dos Estados Unidos, quando Dotty, afligida por uma cegueira parcial, cai da cama e sofre uma pequena fratura. Manipulada por sua neta, é posta em um asilo, deixando Stella para lidar com a neta manipuladora.

Teimosa, desbocada e inconsequente como é, Stella não perde a oportunidade e sequestra Dotty na primeira chance, para então levá-la até o Canadá e casarem-se legalmente. Após o sequestro, começamos a acompanhar suas histórias em um leve Road Movie, com direito a tráfico de remédios, pênis em para brisas e um dançarino solitário.

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Como uma diva dos anos 1920, Stella atrai todos os holofotes para si, seja pelos motivos certos ou errados. Apesar de toda a arrogância e grosserias da protagonista, é impossível não sentir todo o amor que carrega por Dotty e permeia toda a atmosfera do filme. Nos olhares, xingamentos, brincadeiras e reflexões, nunca ficamos em dúvida sobre a motivação de ambas para permanecerem juntas. Apesar de cega, Dotty enxerga Stella mais do que qualquer conhecido ou familiar. Mais uma vez, um clichê, mas realizado de forma doce e simples. Afinal, quem resiste a duas idosas tão fofas?

Em uma boa novela, temos personagens que nos cativam por apresentarem diversas camadas, desenvolvidas durante os capítulos. Cômicos, trágicos, inúteis, vilões. A lista de tipos vai longe. Mesmo sendo um filme bem curto, “Tempestade na Estrada” nos presenteia com um humor tão simples, que em momentos parecia estar assistindo a uma cena, bem longa, de divertidos personagens em alguma novela.

Apesar da temática gay, o filme não se prende a esse aspecto. Tal qual o belo “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”, aqui a homossexualidade das protagonistas é um aspecto de suas identidades, não o ponto central do filme, o que abre espaço para que a história não trate de assuntos que fujam do amor entre Stella e Dotty.

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Na relação das duas vemos, ao mesmo tempo, companheirismo e fidelidade. Se as ações de Stella perturbam Dotty, tais atitudes não são mostradas como defeitos, mas um dos motivos pelos quais Dotty é tão apaixonada pela personalidade da companheira e futura esposa.

Com um clima positivo, belos cenários e um humor incrivelmente divertido, essa comédia romântica da terceira idade marca a busca definitiva para selar um amor de muitas décadas.


Hamlet Oliveira

Falar da mesma coisa é sempre muito chato. .
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