fugindo do lugarcomum

Do quarto 237 ao olhar do Grande Irmão

Hamlet Oliveira

Falar da mesma coisa é sempre muito chato.

Os ratos sem valor de Maus - A História de um Sobrevivente

Em "Maus - A História de um Sobrevivente", Art Spiegelman nos mostra uma visão diferente dos horrores do Holocausto. Em quadrinhos e com animais representando os marcantes personagens, somos capturados pela ótima forma na qual a história se desenvolve. Com imagens inesquecíveis, é leitura obrigatória para fãs do gênero e apreciadores de grandes histórias de sobrevivência.


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A Segunda Guerra Mundial ainda é objeto rico de análise sobre seus inúmeros fatos, seja por meio de livros, documentários, jogos, filmes, enfim, as opções são diversas. Dentro de tantas maneiras para nos aprofundarmos nos acontecimentos de um período tão triste na história da Humanidade, sempre preferi aqueles que tratam com mais sentimento os fatos.

Dentre os eventos mais traumáticos e que descubro algo novo sempre que pesquiso mais é o Holocausto, o famoso genocídio de judeus e tantas outras minorias pelo Reich. Mas visões de fora, como análises de números e informações sobre as formas de extermínio não são o suficiente. Jamais saberemos o que foi passar por tamanho horror, mas algumas obras nos fazem ter uma melhor compreensão dos acontecimentos. E é nesta posição, de espectador, que “Maus – A História de um Sobrevivente”, de Art Spiegelman, nos coloca.

Spiegelman não viveu o Holocausto, mas é filho de um sobrevivente. Seu pai, Vladek Spiegelman, foi um dos judeus que, com muita sorte e esperteza, conseguiram se livrar da morte nos campos de concentração nazistas. Apesar de incrível, a história de Vladek não é o aspecto mais chamativo em “Maus”, mas a forma como é contada: em quadrinhos. Mas não simples quadrinhos. Em alemão, “Maus” significa “ratos”, e é dessa forma que os judeus são retratados, real e figurativamente, na obra.

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Todos os personagens do livro são animais antropomorfizados, diferenciados de acordo com suas nações. Judeus são ratos, alemães são gatos, americanos são cachorros, poloneses são porcos, entre outros. Essa abordagem diferenciada garantiu que “Maus” se tornasse um grande fenômeno, sendo vencedor de diversos prêmios importantes de literatura, como o Pulitzer.

Aos poucos, vamos observando a escalada da crueldade nazista com os judeus, à medida que as sanções se tornam mais cruéis, como no período em que os próprios bairros pareciam campos de concentração, com execuções ao ar livre e prisões arbitrárias. Apesar de filho do homem que retrata a história, Art não deixa de nos mostrar os defeitos de seu pai, o colocando não como um herói, mas como uma pessoa com defeitos iguais a todas as outras.

Escrito em duas linhas do tempo, a das entrevistas de Art com seu pai e Vladek durante a Guerra, vemos como o pai do protagonista é um homem difícil, mas que nunca deixou de lutar por sua liberdade e pelo bem estar de sua família. Apesar de perder quase todos os familiares durante o conflito, seu amor por sua esposa, Anna (mas que ele, polonês, pronuncia como “Anya”) o faz enfrentar riscos ainda maiores dos que os habituais.

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A abordagem diferenciada do autor se reflete em diversos momentos, fazendo com que a obra traga diversas imagens marcantes, belas e tristes. Em meio a tantos acontecimentos graves, Spiegelman ainda consegue trazer um rápido e leve humor, como nos momentos em que Vladek se passa por um polonês e uma máscara de porco é colocada em seu rosto de rato.

Um dos pontos principais do livro é a difícil relação entre Art e seu pai, graças as diferenças entre eles, agravadas pela impaciência do autor com os costumes e manias do sobrevivente. O relacionamento se torna mais complicado pelas ocasionais comparações feitas por Vladek entre Art e seu falecido irmão, Richieu, morto nas câmaras de gás.

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Diante de uma obra com tamanhos detalhes, é difícil definir “Maus” com poucas palavras. Os personagens, mesmo alguns com pouco tempo de participação, possuem características marcantes, nos fazendo compreender sua importância e objetivos. Com as atrocidades do Holocausto sendo expostas de forma tão única, o livro se destaca pela ótima forma com que foi construído.

Intenso e emocionante, “Maus – A História de um Sobrevivente” é para todos, até mesmo quem não gosta de quadrinhos, mas aprecia uma bela história de vida.


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