garimpando o luar

Cruzando os mares e a lua cheia

marcinho

Publicitário, músico e, principalmente, um apaixonado pela vontade de escrever. O lápis, o papel e o violão são as minhas melhores companhias.

As Amélias de Chico Buarque

Todos sabemos que Chico Buarque conquistou a alma feminina, mas poucos foram capazes de entender o que, até então, só ele entendia.


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Chico Buarque se atreveu e conseguiu realizar uma das tarefas mais difíceis para qualquer ser humano: decifrar e entender a mulher e o universo feminino. Como se não bastasse entender uma só mulher, Chico entendeu muitas delas. Dóceis, de vida fácil, trabalhadoras, filhas, mulheres, amores, amantes, musas, silenciosas, cantoras, do mar, do céu, de outro lugar, que amam o mesmo sexo ou não. Não importa. Chico Buarque parece entrar espiritualmente em cada uma delas e entender como elas olham e veem o mundo, seus pontos de vista e a forma em como vão agir em cada situação. Talvez possa ser muito para você, porém para ele foi pouco. Não só escreveu sobre as mulheres, mas como mulher e como quase mulher. Nunca se prendeu a um “eu lírico” e sempre deixou a sua obra falar por si só.

Seja Aurora, Bárbara, Helena, Carolina, Iracema, Teresa, Nina, Renata, Rosa e tantas outras, o poeta eternizou cada uma delas de uma forma diferente. O que ela não viu? Te chamou em silêncio. Voou para a América. Foi para o mar e te deixou a ver navios. As palavras que ia falar, nem uma brisa soprou. Deixou mudo o seu violão. Te adoro, te quero, mas não passo bem sem carnaval.

Atrás da Porta, Chico Buarque mostra do que uma mulher é capaz de fazer para não deixar que um amor vá embora. E atrás da porta se faz de tudo, até mesmo os dois lados da moeda, se vingar e se humilhar. “Dei pra maldizer o nosso lar, pra sujar teu nome, te humilhar e me vingar a qualquer preço, te adorando pelo avesso pra mostrar que ainda sou tua”.

Entretanto, Folhetim retrata uma mulher da vida, capaz de dar prazer ao seu homem, ainda que seja apenas por um curto espaço de tempo. Mostra de forma escancarada a posição daquela mulher na sociedade sem se importar, ao deixar claro, que amanhã tudo acaba. “E eu te farei as vontades, direi meias verdades sempre à meia luz e te farei vaidoso, supor que és o maior e que me possuis. Mas na manhã seguinte, não conta até vinte, te afasta de mim, pois já não vales nada, és página virada e descartada do meu folhetim.”

Em Anos Dourados, o amor de uma mulher por um homem do passado. A composição, feita juntamente com Tom Jobim, mostra que o “eu lírico” feminino se arrependeu de deixar essa história para trás, mas que sabe que está se metendo em uma situação talvez constrangedora. “Te ligo ofegante e digo confusões no gravador. É desconcertante rever o grande amor”.

Falar sobre as músicas e sobre o que escreve Chico Buarque não é meramente dizer “eu gosto” ou “eu não gosto”. Tudo isso vai muito mais além. É preciso ser um pouco como ele foi. Compreender o que diz a respeito de cada uma delas ou como cada uma delas. Muitas vezes mostrando sua fragilidade como homem, ou sua força como uma mulher.

Em muitas outras obras, o compositor apenas faz referência às mulheres, e escreve sua poesia como um homem. Recentemente, ao se apaixonar por uma jovem 36 anos mais nova que ele, falou abertamente em sua música Essa Pequena sobre o que sente: “Às vezes ela pinta a boca e sai. Fique à vontade, eu digo: ‘take your time’. Sinto que ainda vou penar com essa pequena, mas o blues já valeu a pena.” entende a diferença de idade, não se reprime e se permite viver um grande amor.

Com toda a atenção do mundo, em Meu Guri, Chico mostra seu lado maternal e traduz em versos a preocupação de uma progenitora que fica feliz ao ver que seu filho consegue alcançar o seu objetivo de vida, mesmo sem nunca entender bem qual a sua profissão. “Chega no morro com o carregamento: pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador. Rezo até ele chegar cá no alto, essa onda de assaltos tá um horror”.

Porém muito antes dele, dois homens, para ser preciso, escreveram sobre uma só mulher. Da inspiração de Mario Lago, o grande ator brasileiro, e Ataulfo Alves, cantor e compositor de samba, nasceu um dos termos mais usados desde então. Quem nunca conheceu aquela que era a mulher de verdade? Aquela que não tinha a menor vaidade? Aquela que só pensa em luxo e em riqueza, mas acha bonito não ter o que comer? Você já deve ter percebido que estou falando sobre Amélia. Sim, Amélia. Mas o que isso tem a ver com Chico Buarque? Ele nunca falou, e sequer mencionou nenhuma Amélia, não é mesmo? Ok, meu caro amigo, é verdade.

Então, o que há em comum?

Na verdade, quando Chico Buarque fala sobre as mulheres e desnuda a alma feminina, tudo isso é tão somente como ele gostaria de ser tratado pelas mulheres. Como os homens, de uma forma geral, gostariam de ser tratados pelas mulheres, pelas Amélias. Claro que dizendo de uma forma poética e musical, tudo fica ainda mais florido, mais belo, mais vivo e se torna latente para todas as mulheres. Ainda não entendeu? Vamos lá!

Em Atrás da Porta, é claro que nenhum homem gostaria de estar com uma mulher que está com outros homens, mas que pareça que ela está com outros. Uma mulher que todo homem quer é a mulher que todo homem quer. E se puder mostrar para todos os amigos que ele está com ela, será ainda mais prazeroso para o universo masculino.

Folhetim revela a realidade masculina quando diz “...supor que és o maior...”, não precisa explicação, não é mesmo? Mas continua “...na manhã seguinte...és página virada e descartada do meu folhetim.” Para alguns homens, passar a noite com uma mulher e que na manhã seguinte ela vire pó, desapareça é como um objetivo a ser alcançado.

Anos Dourados fala sobre “rever um grande amor” e ainda espera que ela não esteja com ninguém.

Acho que, de certa forma, já é possível entender o que Chico Buarque quer dizer. Isso não significa que de mocinho passe a ser o vilão. Muito pelo contrário. Continuará dizendo palavras lindas e que com certeza farão muitas mulheres apaixonadas.

Uma última observação para concluir.

Em Com açúcar, com afeto, o “eu lírico” fala justamente sobre a mulher perfeita. Aquela que lhe dá amor, atenção, carinho, que faz de tudo para ele ficar em casa, ou, se ao menos for sair, que volte, mas que volte sempre. Em outras palavras, a nossa Amélia. Aquela sim que era mulher de verdade.


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Publicitário, músico e, principalmente, um apaixonado pela vontade de escrever. O lápis, o papel e o violão são as minhas melhores companhias. .
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