garimpando o luar

Cruzando os mares e a lua cheia

marcinho

Publicitário, músico e, principalmente, um apaixonado pela vontade de escrever. O lápis, o papel e o violão são as minhas melhores companhias.

Pela volta do amor verdadeiro (musicalmente falando)

Não se trata de mudar o foco. Não se trata de não descrever o que se sente. Trata-se de que “você é linda” e não de que “assim, você me mata”.


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Foi-se o tempo em que o amor era cultivado na música brasileira. Hoje em dia, tudo se resume a “pegação”, a dizer o quanto uma mulher pode ser “gostosa”, ou qualquer coisa do gênero. Não se faz mais música como antigamente. Isso é fato. Infelizmente, a verdadeira música boa ficou para o lado B. A questão aqui é saber por que isso acontece. O que foi que mudou dos 80/90 para cá? Ok, tudo bem. Já faz um tempo. Vinte ou trinta anos, é verdade. Mas qual a razão de tal mudança? Por quê?

É verdade que o que impera, nos dias atuais, são as músicas cada vez mais comerciais. Aquelas que vendem. Aquelas que dão lucro, mais para gravadora que para músico. Eu, que sou compositor, me sinto cada vez mais distante da realidade atual. Graças a Deus! Seria uma afronta escrever algo só para agradar a maioria e não o que sinto aqui dentro. Não procuro o sucesso. Nunca procurei. Mas voltando ao assunto...

Há um tempo, escrevi em outro blog, como seria a atual “Garota de Ipanema”. Infelizmente, o blog foi hackeado e acabei perdendo essa informação, mas era algo como a mistura entre “Ai, se eu te pego” e “Balada Boa”. Se pudessem ouvir, Vinícius e Tom, certamente se debateriam dentro do caixão. É claro que tanto o pessoal da Bossa Nova quanto o pessoal do Sertanejo querem somente uma coisa: exaltar a mulher. Por incrível que pareça ela é a razão, única por sinal, pela qual um homem pode sentar e escrever as mais belas, ou mais sórdidas, palavras. Tudo depende de quem ouve, escuta e aceita, ou não.

Então, pensando por esse lado, poderíamos dizer que o grande problema seria a mulher. Será mesmo? Muito da nossa sociedade tem mudado nesses anos. Nessa pequena distância, entre os anos 80/90 e os atuais 00/10.

Se você nasceu em meados dos anos 90 ou no começo desse século – sim já mudamos de século - você deve estar achando isso uma grande besteira. Mas vamos fazer uma pequena análise do que pode ser ou não ser.

Ano: 1962. Local: Rio. Sim, esse mesmo que continua lindo. Na praia de Ipanema, Jobim e Moraes escreveram uma das letras mais lindas sobre um amor que, quiçá, nunca se concretou. Aliás, a “moça dourada do Sol de Ipanema” existiu na vida deles, ou não? Segundo muitas fontes, tudo não passou de um “amor de verão”.

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Ano: 1972. Local: São Paulo. “Como vai você?”. Foi com essa pergunta que Antônio e Mario Marcos começaram a traduzir a falta de alguém em lindos versos de amor. Música que seria mais tarde gravada pelo Rei Roberto. Nessa canção, o amor fala mais alto. Grita. Suplica para que fique, permaneça ao seu lado, e, que juntos, tenham uma noite maravilhosa. Sendo até egoísta. “Vem que a sede de te amar me faz melhor. Eu quero amanhecer ao teu redor. Preciso tanto me fazer feliz. Vem que o tempo pode afastar nós dois. Não deixe tanta vida pra depois. Eu só preciso saber como vai você.”.

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Ano: 1983. “Você é linda” de Caetano Veloso. O autor da obra fala coisas que são ditas em músicas atuais, mas de forma muito mais sútil. Sem deixar de mostrar, assim, sua fragilidade. “Gosto de ver você no seu ritmo, dona do carnaval. Gosto de ter, sentir seu estilo, ir no seu íntimo. Nunca me faça mal”.

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Ano: 1999. Local: Rio de Janeiro. Uma das bandas mais amadas/odiadas do Brasil escreveu o hit que fechou o século passado. “Anna Júlia” foi sem dúvida a “Garota de Ipanema”. Ecoada e cantada em diversos idiomas, a banda chegou a pedir para parar de tocar sua música nas rádios. A história? O produtor apaixonado por uma menina que havia despedaçado o seu coração. “Quem te ver passar assim por mim, não sabe o que é sofrer. Ter que ver você assim, sempre tão linda.”

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Agora, a coisa muda de figura. É o momento de virar o baralho. O século mudou. Muita coisa iria mudar, mas nem todos iriam perceber.

Ano: 2008. “Ai, se eu te pego”. Não ficou devendo nada para a “Garota” do século passado e para a tal “Anna”. Pelo contrário. Virou febre mundial e foi cantada e gravada em milhares de idiomas. Talvez, pela força da internet. Talvez, pela força do marketing. Talvez, porque era realmente boa(?).

Ano: 2011. “Gustavo Lima e você. Me liga, porque hoje vai rolar”. Precisa de mais palavras?

A pergunta que não quer calar é: o que aconteceu?

Alguma coisa deve ter acontecido quando mudou o século. Não é possível. Onde está a poesia? Onde está o romantismo? Veja bem, eu disse romantismo, e isso não tem nada a ver com ser brega. Nada contra, a questão nem é essa. Se você reparar, vai perceber que todas as músicas falam da mesma coisa: sobre uma linda mulher e que existe um homem que quer passar uma noite com ela. Fazer sexo. É isso. Tão simples como nos tempo das cavernas. Não tem voltas, não tem truques, mas sim, existe uma diferença muito grande entre o que diz Vinicius, Caetano, Roberto e os Hermanos em comparação a Michel e Gusttavo.

Qual a diferença?

A poesia. O mel das abelhas. O perfume da rosa. O raio de Sol. A nuvem do céu.

O balanço que ela traz. O seu corpo dourado. Ir no seu íntimo. Ter que ver você sempre tão linda.

A vida sem poesia não tem graça, não tem cor, não há razão de ser. A vida sem poesia simplesmente não existe. Ela se torna chata e medíocre. A poesia é o que dá beleza a nossa vida tão difícil e cansativa. Tudo isso se trata de que “eu quero amanhecer ao seu redor” e não de que “hoje vai rolar”.

Pense nisso!


marcinho

Publicitário, músico e, principalmente, um apaixonado pela vontade de escrever. O lápis, o papel e o violão são as minhas melhores companhias. .
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