garimpando o luar

Cruzando os mares e a lua cheia

marcinho

Publicitário, músico e, principalmente, um apaixonado pela vontade de escrever. O lápis, o papel e o violão são as minhas melhores companhias.

Você se incomoda com os gays?

Sim? Por quê? Não? Então, você se incomoda com o quê? Você toma atitudes contra pessoas ou contra outras atitudes?

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Acabo de ler uma manchete, em um grande portal, falando de uma matéria do The New York Times​ que faz uma pergunta curiosa. Vou contar um pouco como cheguei até aqui.

Já faz muito tempo que não sei mais o que é ter um relógio biológico regular. Não tenho hora para acordar e muito menos para dormir. Mas deixemos isso de lado, somente por este momento.

Acordo cedo, levanto da cama e, depois de tomar banho e escovar meus dentes, vou esquentar a água para tomar meu chimarrão. Quando vou colocar a água no fogo, percebo que não tenho nada para comer. “Droga, vou ter que ir até a padaria e comprar alguma coisa para o café da manhã”, foi o que pensei. E fiz. Ao chegar lá, vejo que o padeiro estava reclamando com a dona do comércio. Sim, uma mulher de 55 anos de idade estava escutando os gritos de um homem, logo cedo. Como ainda estava meio zumbi - sem tomar meu chimarrão eu não consigo abrir os olhos direito - não fiz nada. Enquanto esperava pelo fim daquela confusão, percebi que ao meu lado estava um rapaz, uma menina e um homem, que tinha idade para ser o meu pai, conversando entre eles. Eles estavam discutindo sobre o imbróglio que estávamos presenciando. Diziam que o padeiro havia chegado tarde ao trabalho porque a mulher dele tinha pulado a cerca - dá pra imaginar o tamanho do abacaxi, não? Enfim, quando a conversa entre o padeiro e a dona do local havia terminado, depois de longos 50 minutos, pude, então, fazer o meu pedido. Pedi as 4 médias - ou pão francês, se preferir -  agradeci, paguei e fui embora. Ao chegar em casa, ligo o computador e, antes de começar a trabalhar, me deparo com a seguinte manchete:

“Você se incomoda com os gays?”

Confesso que não consegui entender a pergunta. Li a interrogação umas 50 vezes. Nada. “Deve ser porque ainda não tomei meu café da manhã. Melhor eu ir logo esquentar a água e tomar meu chimarrão. Só assim irei acordar de vez.”, foi o que passou na minha cabeça. Ponho a água no fogo, preparo meu pão com manteiga e, enquanto isso, vou pensando na pergunta que havia visto na internet. Meu primeiro pensamento foi: “É claro que não! Tenho amigos que são gays. Eu não tenho preconceito.”, mas antes mesmo de que eu pudesse terminar, continuei “Que pensamento mais estúpido é esse que eu tenho”. Então, refletindo um pouco mais, cheguei a seguinte conclusão: se incomodar com os gays é como se incomodar com os homens e com as mulheres. Não há forma de se incomodar com os gays, assim como você não se incomoda com os homens ou com as mulheres. Faça um teste, conte para um amigo que você se incomodou com uma determinada pessoa. Certamente, você irá ouvir a seguinte pergunta:

- Mas o que foi que essa pessoa te fez?

Aí está o “x” da questão. O incômodo é com a atitude daquela pessoa naquele momento. Se eu fizer a seguinte pergunta a você, leitor:

- Você se incomoda com os homens / as mulheres?

Talvez, você, mulher, me responderia: “Me incomodo quando os homens falam qualquer coisa quando estou sozinha ou com uma amiga." e você, homem, diria: “Me incomodo quando as mulheres ficam dizendo para fazer isso, fazer aquilo, etc.”. Perceba que você nunca disse que se incomoda com as mulheres ou com os homens, mas com as atitudes que essas pessoas têm. Com os gays não é diferente. Ninguém se incomoda com uma pessoa, ou com as pessoas. Na verdade, você se incomoda com o jeito, o caráter, a atitude da pessoa, mas não com a "escolha" sexual dela - não acredito em escolha sexual, mas isso é pauta para outro artigo. Voltemos ao exemplo do que acabou de acontecer: ao chegar na padaria, achei que o padeiro estava sendo extremamente grosseiro, afinal de contas, ele estava gritando com uma mulher de 55 anos. Depois de saber a história dele, pude entender um pouco mais seu ponto de vista, mesmo assim, a atitude daquele homem foi grosseira. Não sei e nem posso julgá-lo, não o conheço. Até então, eu só falava com ele para pedir o pão. Não sei nem o nome dele. Ou seja, não há forma que eu me incomode com a pessoa do padeiro, independente da “escolha” sexual dele – não sei se ele é gay ou não e não é problema meu. As atitudes fazem o ser humano. Ser gay não é uma escolha, não é uma doença. Ser gay é ser gay. Assim como eu sou homem, aquele casal é um casal e aquele senhor poderia ser meu pai. Simples assim.

Eu posso me incomodar com meu relógio biológico que está totalmente alterado? Sim. Posso me incomodar com a falta de pão no café da manhã? Sim. Posso me incomodar com a atitude do padeiro para com a dona da padaria? Sim. Posso me incomodar com as atitudes das pessoas, mas jamais com as pessoas. É claro que você pode se incomodar com um gay, desde que ele faça alguma coisa que esteja ofendendo a sua pessoa. Mas não me fale de beijos e abraços, porque os casais fazem isso e as pessoas não se incomodam.

Da próxima vez, pense um pouco antes de qualquer atitude sua. Você é aquilo que faz.

Em caso de incômodo, lembre-se: “Os incomodados que se mudem!”.

Pense nisso!


marcinho

Publicitário, músico e, principalmente, um apaixonado pela vontade de escrever. O lápis, o papel e o violão são as minhas melhores companhias. .
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