gincobilando

do espetáculo, há vida.

Arthur Krokovec

Mistura cósmica do lúdico e do lúcido. Escreve cartas para si mesmo e por vezes se esquece do remetente. Seria poeta, se não fosse o destinatário.

Sonho Lúcido: Para aqueles que já viajam sem sair do lugar

Há um espaço muito possível, do qual o homem ainda pouco explorou. Um universo onde o seu pensamento plana e a lei da gravidade transborda possibilidades. Um terreno intrínseco da mente, situado numa incalculável dimensão. Esse desejado lugar não só existe como também pode ser controlado. Estamos falando da experiência onírica que vem ganhando cada vez mais adeptos no mundo: a do sonho lúcido.


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Todo homem vivo sonha. Não importa idade, tamanho, raça, credo ou país de origem. Sonha, inclusive, aquele que ainda nem veio ao mundo e está à espera, na barriga da mãe - pesquisas feitas por ultrassom já conseguem revelar incrível beleza. O sonho é a constante da vida, e isso explica um pouco os motivos pelo qual a busca para desvendá-lo seja tão grande e ainda assim, insaciável.

A realidade que presenciamos é para se apalpar; a do aqui e agora. Aonde tudo é percebido e por demais sólido. Uma realidade onde o chão é duro e os objetos ganham caráter absoluto, bastando apenas olhá-los com o mínimo de atenção necessária. Longe dessa condição terrena, porém, existe uma brecha em que as preocupações cotidianas passam sutis e silenciosas.

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Sempre que adormecemos - e isso vale dos pequenos cochilos até as sedentárias tardes de domingo - participamos de outra cena, tão corriqueira e normal quanto às testemunhadas no dia-a-dia. Sem notarmos, migramos num passe de mágica para outra dimensão e pronto, tudo simplesmente aparece. Como efeito da troca, passamos de diretores à meros receptores do ambiente e seu jogo de imagens. Viramos quase, digamos; coadjuvantes - para não dizer platéia.

Entrelaçar esses dois universos categoricamente distintos - o físico e material, com o onírico e fantástico - é tão natural que, de fato, nem sentimos a transição do primeiro para o segundo. E é por conta desse detalhe tão autêntico, que a hipótese de questioná-lo nunca nos passou pela cabeça.

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Ante toda vertente de pensamento surgida em torno dos sonhos (sendo ela de origem freudiana ou junguiana, nas versões modernas) há uma que vem ganhando cada vez mais adeptos, por ser, no mínimo (até para os menos interessados), bastante curiosa.

É a experiência de se obter lucidez durante certo período do sono, denominada sonho lúcido. Uma prática que sempre existiu na humanidade (por laços da cultura tibetana), mas que somente nas três ultimas décadas começou a ganhar sua devida atenção.

O sonho lúcido é a fantástica arte de sonhar sabendo perfeitamente que está sonhando, ou seja, ter completa consciência para agir de forma autônoma no seu próprio inconsciente. Despertando - e se espreguiçando, se assim quiser - sem necessariamente ter que acordar e levantar da cama.

inception3.jpg No filme Inception (2010) essa constatação é demonstrada por Cobb (Leonardo DiCaprio), quando ele pede para Ariadne (Ellen Page) se lembrar de como haviam chegado ao restaurante. Sonhos não possuem ordem cronológica.

Esse é o chamado estado de claridade mental, que surgiu como termo e tese através do escritor e psicopatologista holandês, Frederick Willem van Eeden (1860 – 1932), pouco antes da Primeira Guerra Mundial. A ideia, na época, não ganhou holofotes e muito menos foi abraçada por psicólogos mais ortodoxos; que não enxergavam seu fundamento e nem sequer um sentido que não fosse obscuro para se levar a cabo o conhecimento.

Mesmo assim, os artigos do autor e anotações de mais de trezentos sonhos lúcidos, felizmente não caíram no limbo - como era de se esperar. Dentre os poucos interessados, estava aquele que seria o principal condutor da atualidade no que se refere à compreensão desse tipo de sonho: o jovem americano Stephen Laberge, hoje com 65 anos e autoridade no assunto.

Laberge, sabendo o potencial desse vasto universo, não perdeu tempo e se aprofundou no assunto, inicialmente tendo-o como foco central do seu Ph.D. O cuidadoso trabalho rendeu mais tarde, no ano de 1985, a criação da sua consistente obra, titulada como “Lucid Dreaming”.

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No livro, ele transmite o propósito de se ter um sonho lúcido e a gama de benefícios que essa experiência pode oferecer ao sonhador. Além de narrar heroicamente a sua própria trajetória para conquistar espaço na sociedade científica, provando de vez a ocorrência da lucidez por vias do estágio do sono chamado REM (movimento rápido dos olhos).

Já se sabia na época que a fase REM é a de maior atividade dentre as etapas do sono, na qual o indivíduo semicerra as pálpebras e movimenta rapidamente seu globo ocular. É nessa fase, também, que os sonhos se tornam mais nítidos.

rem1.jpg O sono REM é o "sono dos sonhos", onde todo o corpo paralisa e as imagens ficam extremamente vivas.

Tomando posse desse conhecimento - que ao contrário do sonho lúcido tinha aceitação unânime - Laberge solicitou um dos melhores laboratórios da Universidade de Standford (EUA), em 1977. E com um polígrafo a sua disposição, pediu para que o pesquisador e entusiasta do estudo, Lynn Nagel, fosse o seu braço direito durante a saga clínica: enquanto Laberge estivesse dormindo, servindo-se de “cobaia” para o teste, Nagel tinha a tarefa de vigiá-lo durante a noite e verificar atentamente os seus olhos fechados.

Os dois haviam combinado previamente que, se Laberge entrasse no sonho lúcido, devia se esforçar à olhar para os lados, imprimindo largos movimentos verticais ou horizontais. Tal ação - acreditavam - poderia se refletir igualmente no olhos adormecidos que Nagel observava; permitindo que esse, por sua vez, pudesse confirmar o sinal enviado quando o amigo acordasse.

Laberge conseguiu o desejado e o que antes era considerado suposição, se confirmou com o evidente registro que o polígrafo mostrou. Claro, depois de diversas tentativas e mais experimentos com outras pessoas, somente em 1981 a novidade foi totalmente aceita, demonstrando para os mais descrentes e resolutos, que o impossível - para eles - já não era tão impossível assim. Em um dos capítulos que escreveu depois, Laberge compartilha sua visão referente às indigestas negações do sonho lúcido que teve de enfrentar durante esse período de quase três anos de imersão - “Lamentavelmente, na ciência nem sempre essa abertura [a novas ideias] é a regra: aliás, também não é muito diferente em qualquer outro campo de esforços humanos”.

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Convencimentos a parte, logo depois da legitimidade atribuída ao sonho lúcido, não faltou early adopters dispostos a contribuir com a divulgação e o aprimoramento da prática. Os exploradores da mente foram nomeados pelo próprio Stephen Laberge como: onironautas.

A palavra onironauta tem raíz na etimologia grega. Pois, segundo os nossos escritos, a primeira consideração dessa espécie de lucidez veio através de Aristóteles (384 a.C – 322 a.C), no seu “Tratado Sobre os Sonhos”. O filósofo deixa claro numa passagem, o lapso de desconfiança que por ora abate o sonhador, pois o “seu consciente lhe diz que aquilo não passa de um sonho”.

O significado, então, vem de oniro (sonho) e náute (marinheiro, ou navegante); daí o termo para conceituar o empenho de quem busca desbravar as ondas do “outro lado”.

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Qualquer pessoa pode ter um sonho lúcido, embora nem todos consigam em nível elevado. Há uma distância entre estar consciente sem interferir em nada (que já é um avanço) e estar consciente podendo usufruir de total controle das coisas.

No mais alto grau, você pode decidir tranquilamente quem gostaria de encontrar (celebridades, parentes que já se foram, amigos distantes, personagens de livros); os locais e paisagens que mais desejaria desfrutar (aurora boreal, a lua, sua casa de infância, woodstock, as ruas da sua cidade cobertas de grama fofa) e fazer coisas que componham o extraordinário (voar por entre todas as nuvens, aumentar dez vezes seu tamanho, atravessar paredes, respirar embaixo d’água, ser integrante dos Beatles).

Poderia escrever o máximo de exemplos e ainda seria mínimo. Nos sonhos não há o que não se possa fazer. As proporções são tamanhas e equivalem apenas a sua capacidade de criar para si.

Thumbnail image for fly5.jpg Normalmente o primeiro impulso do sonhador é o de querer voar.

Contudo, existem caminhos que viabilizam esse alcance. São os exercícios praticados por meio de técnicas de indução do sonho lúcido, que consistem em nada mais do que a preparação do cérebro para a atividade noturna. A mais famosa se chama MILD (indução mnemônica dos sonhos), também desenvolvida por Laberge, e que sugere ao sonhador estabelecer internamente uma conexão entre “quando” se quer e “o que” se quer. O “quando”, deve ser “quando estiver sonhando” e “o que”, vai depender das asas que a sua imaginação conceder. Essa técnica, segundo Laberge, deve ser aplicada durante aquele despertar repentino no meio da noite. Para isso, deve se ter em mente um objetivo intencionalmente traçado.

Caso o MILD não atenda as suas expectativas, não há problemas. Na cartilha de “fórmulas” incluem outros exercícios tão eficazes quanto: o método do Dr. Tholey (1937-1998), por exemplo, prevê que, questionar a a realidade constantemente no dia-a-dia, seja a melhor alternativa para naturalmente ficar lúcido nos sonhos. O que significa não apenas uma rápida e singela dúvida das coisas, mas sim, ter de olhar tudo - carros, objetos, pessoas - ao seu redor; e estranhar como nunca havia estranhado antes (ótima oportunidade para assistir certos eventos indesejados).

Thumbnail image for truman.jpg Para os fãs do filme O Show Truman (1998), o método Tholey é infalível.

E outras diversas variantes, que se distribuem em siglas e mais siglas: WILD (sonho lúcido induzido acordado), WBTB (acordar e voltar para a cama), DEILD (encadeamento de sonho) e CAT (técnica de ajuste de ciclo).

Não sendo o suficiente, a boa e velha anotação diária num caderno também surte relativo efeito. Pois assim, o seu cérebro trata de ir se adaptando aos poucos à nova mensagem que está recebendo, e automaticamente se torna mais flexível à memórias do gênero. Ele sabe que você quer se lembrar, e isso o deixa mais propenso a identificar os sonhos no momento em que eles ocorrem. Na linguagem popular, ele fica mais “malandro” e sabe que alguma coisa está fora da ordem habitual - como, de repente, um cavalo falar.

matrix6.jpg "Quero libertar sua mente, Neo. Mas só posso te mostrar a porta. Você tem de atravessá-la" - Cena clássica do treinamento que Morpheus dá a Neo, em Matrix (1999). Seria o equivalente do preparo exigido para ser um onironauta.

Além do intuito puro da diversão que o sonho lúcido pode proporcionar, outros benefícios - dentre os que ainda estão sendo investigados - foram atribuídos por especialistas e psicólogos da área, como por exemplo, o de auxiliar pacientes a lidarem com memórias desagradáveis - na terapia contra desordem pós-traumática – ou mesmo o aperfeiçoamento de tarefas, executando-as enquanto estiver dormindo.

Também é considerado - e não poderia deixar ser - como elemento chave para o autoconhecimento, devido o contato direto e extremamente profundo com a psique humana e seu interior. Carl Gustav Jung (1875 – 1961), mesmo não sendo referência quanto à lucidez na vida onírica, já sabia disso como ninguém – do poder transcendental dos sonhos - com a ideia do inconsciente coletivo e depois com a psicologia transpessoal.

jung.jpg “Quem olha para fora, sonha. Quem olha para dentro, acorda” - Jung, o primogênito de Freud, segundo o próprio pai da psicanálise

Talvez a experiência de se ter razão num mundo essencialmente subjetivo, soe contraditório em ouvidos mais objetivos. Mas, o que é a vida se não um eterno paradoxo?

O que antes era inacessível a vagos cinco sentidos, felizmente permanece. Pois só assim, as janelas para o surpreendente se abrem. E o melhor, quando isso acontece: apenas você pode entrar.

Bons sonhos! Notas: Quer saber mais? Visite o site do Instituto do Sonho Lúcido http://www.lucidity.com/ ou também o site brasileiro http://www.sonhoslucidos.com/


Arthur Krokovec

Mistura cósmica do lúdico e do lúcido. Escreve cartas para si mesmo e por vezes se esquece do remetente. Seria poeta, se não fosse o destinatário..
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