gincobilando

do espetáculo, há vida.

Arthur Krokovec

Mistura cósmica do lúdico e do lúcido. Escreve cartas para si mesmo e por vezes se esquece do remetente. Seria poeta, se não fosse o destinatário.

FLEET FOXES: O RESSOAR DOS CAMPOS

Certamente você já se sentiu flutuando ao ouvir uma determinada música. Talvez já tenha fechado os olhos e quando percebeu estava de braços abertos, achando que podia voar. Não duvide, o Fleet Foxes é uma daquela boas exceções, que te fazem perder a noção do tempo. Uma daquelas bandas, que não se encaixam em nenhuma época, pois conseguem pertencer a todas.


Banda 2011_1.png Regougar: falar em tom áspero e gutural, semelhante ao gritar da raposa - significado de uma palavra que está correta nos dicionário em português, mas que de forma alguma corresponde o novo cenário musical. A frota das raposas, ou melhor, o Fleet Foxes; são capazes de fazer o extremo oposto quando cantam em uníssono, tornando o regougo canídeo muito mais semelhante a uma bela e tranquila melodia de pássaros.

Thumbnail image for Banda_2011_1.jpg

O berço do grupo - também em contradição - está localizado na costa do Pacífico, em Seattle (EUA), cidade conhecida pelo forte movimento grunge ocorrido nas décadas de 80 e 90. Um terreno fértil para aqueles que desejam se espelhar em bandas como Nirvana, Pearl Jam, Mudhoney, Alice in Chains e Soundgarden.

O que absolutamente não é o caso dos Foxes, ou mais especificamente, de Robin Pecknold. O jovem compositor, ainda na adolescência, resolveu se inspirar em outras partes do mapa. Pois, se a terra de Kurt Cobain não se adequava aos seus acordes, a poucos quilômetros dali – no Canadá – já podia encontrar o país que deu origem a uma das vozes femininas mais emblemáticas do folk rock: Joni Mitchell.

Além de Joni, outros tantos adeptos do gênero musical que levou o espírito campesino para se misturar com o agito urbano, influenciaram Robin. Nomes como Bob Dylan, Joan Baez, CSNY (Crosby, Stills, Nash & Young), Pete Seeger e Simon & Garfunkel; não tardaram a entrar na sua lista sonora. E com 16 anos foi descoberto pelo produtor Phil Ek, da conhecida Sub Pop Records – que lançou o consagrado álbum Nervermind (1991).

Thumbnail image for Robin4.jpgUma das bem acertadas interpretações de Robin: Ain't Me Baby, escrita por Bob Dylan em 1964.

Hoje, o conjunto norte-americano não só evidencia as suas influências, como também passeia pelo estilo barroco e flerta com o indie – um indie que devia estar bem guardado ao lado de um alaúde, em alguma casa de campo no século XVI. Junção aparentemente confusa para quem ainda não os ouviu, mas que surpreende logo no primeiro contato por sua beleza.

Também integrado por Skyler Skjelset (guitarra, bandolim), Christian Wargo (baixo, guitarra, vocal), Casey Wescott (teclado, vocal) e o multi-instrumentista Morgan Henderson - sem contar a recente saída de peso, do baterista Josh Tillman - o Fleet Foxes tem apenas 6 anos de estrada e já carrega nos braços três obras-primas; todas recebidas de pronto com grande aprovação da crítica: o aclamado EP – que poderia facilmente ser uma abreviação de ‘épico’, apesar das poucas faixas – chamado Sun Giant (2008), o homônimo álbum Fleet Foxes (2008) e o mais recente Helplessness Blues (2011).

Banda_2011_studio.jpgDa esquerda para direita: Casey Wescott, Skyler Skjelset, J. Tillman, M. Henderson e Christian Wargo. Em primeiro plano: Robin Pecknold

No entanto, antes de alcançar a perfeição – se assim podemos chamar os sons que transcendem o alcance auditivo – o primeiro EP, que não é tão conhecido, foi lançado um pouco antes, no ano de 2006. O também homônimo é de vigor um tanto mais juvenil e apresenta batidas bem mais características. Algo visivelmente distinto do atual momento.

O que, ademais, não diminui em nada o seu valor. Basta ouvir Anyone Who’s Anyone, para se deparar na parte final com uma empolgante e repetida levada de Robin, dizendo – “É muito melhor sob o sol. Eu sou apenas uma pequena miragem” – quase predizendo o que seriam as posteriores criações da banda em cima do gigante de fogo. Ou então Icicle Tusk, com brandos toques de glockenspiel (espécie de xilofone; uma simpática tradução do alemão para “jogo de sinos”) e ritmada por um brilhante coro, que os fãs tão bem viriam conhecer.

A principal diferença, contudo, encontra-se na capa do disco. Seu fundo verde de listras brancas ainda deixa vago o estilo do grupo, que nas futuras produções surgem acompanhadas de desenhos mais conceituais, como por exemplo, a arte de Pieter Bruegel (1525 - 1569), o mestre flamengo das paisagens.

E tal mudança gráfica, obviamente, não poderia deixar de indicar nova postura. O seguinte mini-album Sun Giant - considerado o debut - demonstra não só o largo passo adiante, como também consegue trilhar um caminho para o infinito. É impactante.

Com menos de vinte minutos e apenas 5 músicas, ele soa como se sempre estivesse, por uma vida toda, apenas a espreita dos nossos ouvidos. Ou então, como se não fosse criação de uma banda iniciante – tampouco dinossauros façam o mesmo.

A primeira faixa - aquele cartão postal amarelado, que há tempos não se vê em casa – nos recebe sem nenhum instrumento, a não ser pela primorosa harmonia de vozes. Sun Giant (mesmo nome do EP) é um eco de paz saudando o nascer do sol e os convidados, com um quase madrigal - “Que vida que eu levo no verão. Que vida que eu levo na primavera.”

Em sequência, Drops in the River e English House. A primeira, de uma potência grandiosa, concretizando as esperanças arrebatadas pela canção número um. A segunda, fixa a charmosa presença de um bandolim como pano de fundo e prepara espaço para a marcante Mykonos; que por sua vez, impõe ápice definitivo do início ao fim.

O desfecho fica por conta de Innocent Son; uma lenta passagem que serena toda energia, sem perder movimento mesmo nos segundos mais silenciosos de Robin.

Uma estreia – formal, pelo menos – costurada com zelo, e que por si só já garantiria posto especial aos Foxes. Embora, é de se imaginar a qualidade do que estava por vir três meses depois: o LP Fleet Foxes, ditosa continuidade que emplacou a venda de 200 mil cópias só nos primeiros 5 meses.

Esse, carrega 11 canções e é moldado por uma completa consonância bucólica. Logo na sua abertura os pequenos “Red Squierrel” ou “Esquilos Vermelhos”, descansam na aurora e aguardam o anoitecer do céu, na faixa Sun it Rises. Um afável desejo de bom dia no leve despertar da manhã.

Sucedida pelo entonado hino de White Winter Hymnal, que apesar de ser a segunda do álbum, traz consigo o coração dele. Sua introdução afinadíssima é força motriz, capaz de prender até os mais absortos com o seu - “I was following the, i was following the, i was following the...”.

Depois Ragged Wood e Tigger Mountain Peasant Song. O uivo animado e o solitário, ambos chegando da mais distante colina. Para um, a reflexão externa - “O mundo está vivo agora, dentro e fora da nossa casa” e para o outro, a interna - “Cara sombra, viva e bem. Como o corpo, pode morrer. Você me diz tudo, nada de verdade”.

Em seguida, Quiet House, que em outro contexto correria o risco de se tornar maçante, na repetição de apenas três frases durante quase quatro minutos. O que, de fato, não ocorre com o jogo de “Lay me down”, “Don’t give in” e “Come to me”.

A ótima He Doesn’t Know Why é constituída de pureza em cada estrofe, precedendo o deleite de Heard Them Stirring, que não necessita de nenhuma letra para nos guiar. Já Your Protector, não sendo o coração é o corpo, pois suscita poderoso crescimento; que impressiona especialmente nas aparições contínuas de um tambor.

Meadowlarks é o ninho bem cuidado. Um ninho onde pousa as ligeiras cotovias, para as quais Robin pede com a mesma atenção que dedilha as cordas - “Cante para mim”. Pedido esse, por sinal, atendido em altíssimo nível pela própria banda, com a qualidade de Blue Ridge Montain. Uma linda dedicação do vocalista ao irmão, o produtor e diretor Sean Pecknold.

Por ultimo, a chave de ouro que alimenta mais vontade de apertar o replay: Oliver James. Um doce desfecho que se inicia com leves toques na superfície do violão, mas que poderia perfeitamente ser o compasso da música inteira.

Fleet Foxes é um álbum autêntico e que se mistura fácil aos nossos sentidos. Uma arte que não precisa de muito para encantar, pois sua transparência é típica do desprendimento criativo que se manifesta em certos talentos. É simplesmente inspirador, pois foi feito com inspiração.

De tão bom, seria um obstáculo no que diz respeito a um segundo lançamento. Pois, repetir a dose nem sempre é uma tarefa fácil e as expectativas em torno do mesmo tendem a atrapalhar qualquer grupo. Situação essa, que levou Robin Pecknold adiar por 3 anos as composições que definiriam Heplessness Blues.

Uma espera que se mostrou valiosa, pois estabeleceu maturidade musical. Se antes o incomensurável brilho pairava no verde da natureza, o atual manteve a cautela poética para nos transportar a nós mesmo – não que antes isso já não ocorresse, mas a introversão de agora se encaixa em outra esfera de genialidade. Após ouvir os dois fica clara a diferença, mas também é icontestável a semelhança. Afinal, amadurecer é necessário, e nesse caso - felizmente - a matéria continuou a mesma.

De primeira somos imediatamente conquistados. A abertura se dá por Montezuma, onde já é possível deduzir a direção que seremos conduzidos - quem sabe, de “Montezuma a Tripoli”, como a própria música diz.

Em Bedouin Dress, o começo nos remete a um ensaio descontraído, no qual a luminosidade aumenta gradativamente e recebe de brinde a delicadeza de um violino. Praticamente uma comunhão celta.

A surpresa logo surge na ponta da língua com a magia de Sim Sala Bim, que utiliza de um truque bem intencionado de ritmos altos e baixos, para nos revelar a fantástica experiência que é a de pertencer a sua plateia.

O festejo retumbante está no balanço de Battery Kinzie, com riffes seguidos de um rígido tambor ao fundo. A sequência, por sua vez, não poderia ser melhor do que a arcana The Plains/ Bitter Dance. Esta possui um ar enigmático – realçado por breves sopros de flauta - e atravessa temperaturas extasiantes no trajeto de seis minutos.

A próxima carrega o nome do disco: Heplessness Blues; que escancara a chama existencial do grupo em estrofes como – “Fui criado acreditando. Eu era de alguma forma, único. Como um floco de neve distinto entre flocos de neve. Único, de cada jeito que você pode ver. E agora, depois de algumas reflexões, eu diria que prefiro ser uma engrenagem funcionando em algumas máquinas grandes. Servindo alguma coisa além de mim”.

Depois a medieval The Cascade, mais um acerto instrumental dos Foxes, que já nem precisam cantar para nos convencer. Lorelai e Someone You’d Admire, compõem uma dupla que se divide no tom, mas se complementam em pensamento. Com frases do tipo – “Eu era notícia velha para você” e “Depois que tudo é dito e feito eu me sinto o mesmo. Tudo o que esperava mudar em mim, ficou”.

O ponto máximo, sem dúvidas, fica por conta da extensa e bem elaborada The Shrine/ An Argument - apesar de alguns fãs insatisfeitos com a aparição de uma "jam session" de sax no final. É admirável a presença de energia que ela traz consigo, numa intensidade que é muito bem representada pelo grito catártico de Robin - “Sunlight over me no matter what I do”.

As duas ultimas que seguem, fecham o álbum com primazia - misturadas com o delírio causado pela anterior. Blue Spotted Tail, por exemplo, é o puro contemplar dos céus. Recheada de perguntas - “Por que as luzes estão acesas no céu noturno? Porque a terra se move ao redor do sol?” - que parecem já conter a resposta, pela calma que são feitas.

E por fim, Grow Ocean. Uma preciosidade em particular, que vibra - por isso - numa frequência única em relação às outras. Seu clipe chega a ser nostálgico; com cenas do making-of.

Todas essas músicas podem ser descritas, mas estão configuradas naquele conjunto de palavras que ainda ninguém sabe como definir. Naquela categoria de adjetivos que não existem e por isso são difíceis de se expressar.

No entanto, uma coisa é certa: o Fleet Foxes é uma peça rara em tempos que tudo já foi explorado. Uma estrela cadente, que decidiu visitar os humanos. E como pedido, nós que somos espertos, desejamos que a sua luz nunca se apague.

Que assim seja.


Arthur Krokovec

Mistura cósmica do lúdico e do lúcido. Escreve cartas para si mesmo e por vezes se esquece do remetente. Seria poeta, se não fosse o destinatário..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/Música// @destaque, @obvious //Arthur Krokovec