gincobilando

do espetáculo, há vida.

Arthur Krokovec

Mistura cósmica do lúdico e do lúcido. Escreve cartas para si mesmo e por vezes se esquece do remetente. Seria poeta, se não fosse o destinatário.

REFÉM DAS REFERÊNCIAS

[...] quando a necessidade não é se libertar.


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Primeiramente tomemos o olhar: por ele e com ele será viável o conectar entre as palavras de quem escreve e as aspas interpretativas de quem lê. Consideremos eu (nome que designa suposta autoria) e você, entidade ativa interdependente de mim; chamo-lhe de leitor (ou leitora, em memória a problemática dos gêneros). Tomemos, antes de qualquer gole, o olhar. Pois vemos o mesmo, no mínimo de onde possamos concordar (se é que devemos concordar em algo).

Vejo-me obrigado, ante o banquete virtual sobreposto nessa tela de led, a destacar o ponto em comum da complexidade mútua: a experiência. O ponto de vagar no soslaio, a mira solitária, o perfurar do vazio que insiste em surgir toda vez que soltamos as pálpebras para cima. Já não bastasse sentir, agora enxergamos!

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Não estou aqui para alguma coisa. De certo modo, nem estou aqui - informações voam mais rápido do que pensamos e o mensageiro nunca acompanha a informação. Sou apenas, no instante, letras combinadas que talvez exerçam a função (também passageira) de despertar sensações. E vale lembrar, sensações têm o poder do movimento.

O ponto de interesse, portanto, vai além da vista. O presente texto trata do embaço no vidro - e não da vidraça. E na esperança de se religar o para-brisa, subentendo a necessidade inata de averiguação da máquina que ocupamos.

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A quantos por hora ainda não se toma multa? Se o tempo se importasse com isso diria: 'não sei'. Quantos apetrechos cabem dentro da lataria? Se o espaço sentisse incomodo alertaria: até onde dê para respirar.

Soubéssemos a resposta da natureza ficaríamos tristes em notar sua falta de objetivo. Por qual vão se encontrará a fractal que permite decodificar de vez a desinteligência dos humanos? Onde está o radar? As leis que suprem mais do que as coisas caindo de cima para baixo? A existência de um conhecimento que não podemos reconhecer em nós de nada valeria aos questionamentos. Ou... quem sabe, inventamos as questões?

Pois sendo criação proposital não me surpreende a síndrome de avaliação. A mente medidora, que se utiliza dos meios assimilados na sociedade para colocar seu cálculo em prática, parece não ter encontrado resultado sozinha - como limpar algo com aquilo que está sujando?

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Dados, gráficos, porcentagens, por metros cúbicos e quadrados. Ano tal, dia tal, semana tal. Apud fulano, apud ciclano, apud eu, apud tu, apud eles, nós, vós, eles de novo. As referências são como cerejas de bolo (do sabor ao gosto e self service), sortidas, decorativas, conseguem reproduzir a tentação infantil e imediata pela bolinha vermelha e doce (na maioria das festas, industrializada, claro).

Já a experiência costuma se apresentar como o próprio bolo de cereja - ou da fruta que quiser, dependendo o tipo de cultura. É quase nula sua presença na prateleira do mercado e seu consumo exige mais (ou menos?) que um dito paladar aguçado: exige o contínuo aguçar desse paladar.

A experiência não está isenta de referências; somente o aprendizado (inerente a ela) é capaz de se abdicar espontaneamente de certas amarras impostas pelo processo do 'ter que mencionar para'. Uma experiência pode existir sem referencial algum - ser até a referência em si - já o referido sobrevive as custas da nossa capacidade de valorizar o passado.

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Nada destrutivo em ter no passado o registro das emoções, as quais chamamos de vivência - desde que colocadas à luz da maturidade, pois ao contrário erraríamos, agindo no perceber das novas coisas tomando-as como velhas. O erro chegaria, se ao invés de suprir, fosse suprimido o que temos como 'leitura da realidade'(pois, o que é velho?).

Simplesmente tudo o que experimentamos é novo - isso bastaria para modificarmos o jeito que lidamos com o conceito de surpresa. Então, o que ter a dizer sobre a avenida em frente a janela do meu apartamento? Qual a graça em ver carros indo e vindo todos os dias, se aglomerando no mesmo horário ora e outra buzinando sem porquê? Tudo parece tão igual, mesmo no movimento... por onde anda a estaticidade que não a capto para comprovar a depressão da rotina? Minha experiência ressoa: 'nada para'.

Mesmo sem ter com quem apostar, aposto que Einsten diria a seguinte frase - 'a realidade é uma ilusão, embora bastante persistente'. E transcrevo-a sem muita formalidade: estamos presos no referencial, viramos reféns das ideias concretas e paradas (enquanto os carros continuam com pessoas de todo o tipo dentro deles).

Somos a própria informação e ainda assim buscamos algo 'lá fora', em outros pontos de referência - que por sua vez estão procurando outros pontos também! Não parece, é um congestionamento.

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E a lente embaça (gradativamente) como todas as lentes negligenciadas que se pretenderiam fazer ver - não seria essa, afinal, a genuína função? Pois na tentativa de disfarçar o desencontro do funcional com o nosso 'vir a ser', fazemos uso de suportes estabelecidos como previsíveis e confiáveis, que na verdade são, no fundo, o exercício criativo desenvolvido por outro indivíduo que, supõem-se, 'veio a ser'.

Quantas vezes o pensamento de alguém que está nos livros foi mais importante que os seus sentimentos ainda vivos? Empiricamente falando, creio na impossibilidade de aprender mais com algo sem visualização (mental ou física) do que no diálogo com um desconhecido que me suscita mistérios.

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Que a composição da vida seja feita de momentos... não sei, mas um olhar cuidadoso percebe como os momentos são preenchidos de vida. E todo momento passado fechou portas para o acesso em corpo - extinguindo assim, a possibilidade para o testemunho ocular - logo, num instante, estamos diante do mais puro contato com o presente. Daí o momento que presenteia, na presentificação, no instante experimental.

Ao lembrar-se do novo nascido em pleno umbigo da experiência, não seria necessário negar ou aceitar as referências - teriam elas, ao contrário, o seu devido lugar. Quando verdadeiras, reapareceriam sutis, dando significado à existência a partir da relevância que trazem para o momento.

A confusão - de efeito colateral equivalente a esmurrar ponta de faca - ocorre no embaralho de informações que acabamos por internalizar quase sem querer (método eficiente em certas ocasiões do cotidiano, mas que repetido diversas vezes encontra dificuldade para aceitar a auto-insuficiência contida no seu desejo de adaptação). refem11.jpg

O objetivo primal da referência - semelhante ao convencimento - é o de ser ponte entre o que a linguagem desvendou e o que ela está querendo desvendar, à fim de validar algo (ou esperar que o validem).

Solicitada em excesso pelo cérebro (o que geralmente acontece, visto o mundo constituído a base da competição, no qual o conhecimento é transformado em forte elemento de promoção ao status quo) pode abalar o senso de segurança da pessoa e consequentemente levar a sua perda de autonomia.

Mas apesar da aparente 'prisão' (de se obrigar a convencer os outros para convencer a si) a referência intensifica o subentendido inconveniente que permeia grande parte do conteúdo nas relações sociais (de onde emerge o referencial coletivo, aquilo que todos já sabem e fazem, o código mor gravado por alguém, etc).

Enquanto as convicções mundanas carecem de sanidade, ela alivia a sempre natural instabilidade do saber: o não saber.

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E há quem ache vazio na ausência de referenciais concretos. Falta, no preencher do silêncio que esvai pensamentos pequenos. Pouco, ao lembrar da profunda verdade existente no saber de que todo ser - inclusive ele, que resgata o fôlego - é poderoso o suficiente para acessar o próprio conhecimento adquirido; afinal, é a própria fonte de informação: o pote inesgotável enquanto dura.

[...]

Pois, sendo informação infinita, sou também ponte de transmissão, frequência sonora, vibração que transforma. Recebo e emito, funcionando sem pausa - ou rebobinação.

O filme, por sua vez, não volta à locadora: o rec não vem acompanhado do botão stop. Não dá para editar, nem reproduzir o que passou nas férias. Posso, em cena a cada passo... só observar... e andar, limpando a lente como pretexto de sentir o vento no rosto.


Arthur Krokovec

Mistura cósmica do lúdico e do lúcido. Escreve cartas para si mesmo e por vezes se esquece do remetente. Seria poeta, se não fosse o destinatário..
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