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Dialogos com cinema e outras artes...

Larissa Mota Calixto

Escritora que adora jazz, folk, dias chuvosos, conversas interessantes e cinema.

O olhar por trás do terror

“Coincidências não existem” é uma das frases ditas pelo anti-herói “V”. Assim, com essa fala pressupõe, nada no longa acontecerá por puro acaso, incluindo os pequenos detalhes. Então, muita atenção. O filme está recheado de referências históricas e literárias. Além de constantes questinamentos sobre a sociedade em que vivemos. Será que somos tão livres quanto pensamos?



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O personagem de Hugo Weaving é um rebelde, um verdadeiro terrorista aos olhos de um governo opressor e autoritário. A sociedade, individualista e alienada, não percebe o quanto é manipulada de forma sutil principalmente pela mídia. Todos são livres desde que andem na linha e sejam submissos ao Estado. Qualquer semelhança com a realidade? Mera coincidência. Até que ponto somos livres? Fica a questão.

A Inglaterra, de um futuro próximo, retratada no longa, era um país sem liberdade de expressão ou pensamento. Um lugar onde seus cidadãos não podiam nem circular livremente em qualquer horário. A sociedade perdera seus direitos básicos quando um grupo político com discurso conservador e religioso, dito defensor da moral e dos bons costumes, constituído de homens tementes a Deus, institui um governo opressor, retratado com semelhanças ao nazismo na sua organização, nos simbolismos e até mesmo nos modelos de prisão.

Quantas vezes podemos observar discursos como esses atrapalhar movimentos que defendem direitos de minorias ou o desenvolvimento das ciências? Eles manipulam as pessoas ao ponto de se declararem inimigos da razão, da modernidade e daqueles que fogem ao seu padrão de conduta. Claro tudo isso de forma bem sutil. Não é preciso ir muito longe para percebermos situações semelhantes.

O longa do diretor James McTeigue foi feito após o 11 de setembro, data em que o mundo mudou completamente e o terrorismo se tornou um pesadelo constante. Em função disso, a liberdade de muitos foi podada, estereótipos criados e os “porquês” se tornaram constantes.

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Um nome extremista para uma atitude extremista. Mas afinal, qual é o propósito desse extremismo? E o que ele é? Terrorismo foi um nome dado a uma violenta maneira de expressão e de não obediência ao Estado. Bem, “V” é considerado um terrorista pelo governo inglês por utilizar desse meio como protesto. Terrorista esse que era britânico, erudito e fazia inúmeras referências a clássicos da literatura como: Macbeth, O conde de Monte Cristo, Fausto e outros. Tais clássicos relacionados a revoluções literárias como: Renascimento e Romantismo.

O longa-metragem possui trilha sonora marcante, em especial a música tocada, durante as explosões. A 1812 Overture de Tchaikovsky dá o ‘tom’ de “V”, e deixa claro que o protagonista tinha um perfil de extremista bem diferente do pregado pelas mídias, o que foi feito com intenção de quebrar estereótipos.

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Vale ressaltar, que cada um dos ataques terroristas realizados pelo protagonista tinha todo um simbolismo. Afinal, eles não eram realizados por acaso. O que faz um incomodo paralelo com os ataques no mundo real. Afinal, eles, muitas vezes, tem um significado, como foi o caso do 11 de setembro, que atingiu o símbolo soberania econômica (Wolrd Trade Center), de soberania militar (Pentágono) e almejava atingir também a Casa Branca, que representa a soberania política dos Estados Unidos.

Não há dúvidas que a leitura desses símbolos não ameniza nem justifica as milhares de mortes causadas em detrimento a tal violência. Nada justifica o caro preço que inocentes tiveram que pagar. Tal leitura apenas nos mostra que existe muita coisa por trás do maior ataque terrorista da história contemporânea. Vamos lembrar que houve apoio americano para instituir ditaduras pelo mundo, incluindo a do Brasil em 1964 e as de alguns países no mundo árabe, durante a guerra fria com o objetivo de garantir a hegemonia capitalista.

O anti-herói queria mostrar para a sociedade que nem tudo estava como deveria ser, alguma coisa precisava mudar e que o poder pode sim emanar do povo como pregavam os Iluministas. Aos poucos ele vai instigando a conformada população, pondo em xeque o comodismo de uma sociedade e a lealdade de um oficial da lei, que investigava os seus atentados, deixando evidente que mudanças precisavam ocorrer. Em nenhum momento, o filme se limita a um discurso bipolar (Capitalismo X Socialismo). Ele traz à tona uma terceira forma de governo, o anarquismo, o que nos leva a pensar sobre até onde o Estado deve interferir em nossas vidas.

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Outra referência do filme está na data em que “V” pretendia realizar o seu maior ataque. Data esta que se tornaria símbolo de toda uma revolução. E que, no mundo real, comemora-se a tentativa de uma grande conspiração ocorrida em 1604 na Inglaterra. Na época, o rei Jaime I não concedia direitos iguais a católicos e protestantes, desencadeando a pouco conhecida Conspiração da Pólvora, que fora liderada por católicos com o objetivo de fazer o mesmo grande ataque que “V” pretende no filme. Todos os envolvidos no frustrado ataque de inicio do século XVII foram condenados à morte e é exatamente com cenas de uma condenação na mesma época por conta de uma ideologia, o filme se inicia.

De fato, este é um filme extremamente rico para uma discussão politizada. Ele te fará pensar, questionar. E mostrará que muitos dos anseios retratados em livros iluministas até mesmo em clássicos, como Política de Aristóteles e A república de Platão e outros são extremamente atemporais, deixando evidente que o controle apenas mudou de roupagem e que o mundo tem muito que evoluir. Sem dúvidas este longa-metragem irá inquietar a sua mente. À primeira vista ele pode parecer um simples filme de ação, mas, V de vingança vai bem além disso.

Larissa Mota Calixto

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