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Dialogos com cinema e outras artes...

Larissa Mota Calixto

Escritora que adora jazz, folk, dias chuvosos, conversas interessantes e cinema.

A metalinguagem do cinema: quando cinema ganha voz

Em meio ao jazz marcado pela voz rouca de Louis Armstrong e pelo Sax de Bechet, nos glamorosos anos vinte e trinta, época de Dalí e Picasso, Hemingway e Fitzgerald, Vila-lobos e Bandeira, o cinema passa a ser então falado, ou melhor cantado.


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Em 1927, surge o Jazz Singer, de Aland Crosland, a grande inovação da Warner Bros. As pessoas passaram então a ir ao cinema para ouvir seus ídolos falarem, cantarem e pouco depois dançarem nas telonas. O cinema ganhava voz. A partir daí, grandes musicais passaram a ser produzidos para encher não somente os olhos, mas também os ouvidos. Afinal, quem nunca se arrepiou com o sapateado de Fred Astaire?

É sobre essa transição que dois grandes filmes falam. Um deles é um musical americano produzido em 1952 e o outro é um filme mudo, e em preto e branco, francês, produzido em 2011. Ambos, inocentes comédias de encher os olhos a lá Chaplin.

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Os dois longas contam a história de atores consagrados do cinema mudo que são surpreendidos por um grande problema. The Jazz singer! A Warner Bros lançara um filme falado. Agora todos tinham que correr para se adaptar. Os atores, além de belos e talentosos, deveriam ter uma bela voz e saber cantar. Dessa forma, muitos astros tornaram-se obsoletos por não se adaptarem, outros por acharem o cinema falado uma grande besteira.

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O musical, Singin' in the rain, dirigido por Stanley Donen e Gene Kelly, mostra um protagonista, Don Locwold (Gene Kelly), que se encanta com as possibilidades do cinema falado e junto com Kathy (Debbie Reynolds), uma bela atriz que canta e dança, e seu fiel escudeiro Cosmo ( Donald O’Connor) transforma uma produção mal sucedida do cinema falado em um musical de sucesso. O longa é marcado por muito jazz no estilo de Sinatra e muito sapateado com belíssimas coreografias.

Já o longa The artist, do francês Michel Hazanavicius, nos revela o outro lado do surgimento do cinema falado, discorrendo a respeito de um grande ator do cinema mudo que, por não conseguir se adaptar à inovação, cai no esquecimento e perde tudo. De repente, vê uma grande oportunidade de se reinventar, o musical. Este belíssimo filme conta com a incrível atuação de Jean Dujardin, que lhe rendeu um Oscar.

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Na era dos grandes efeitos especiais, onde vamos ao cinema para encher os olhos com a beleza e a perfeição de efeitos computadorizados. Michel Hazanavicius vai na contra mão e cria um filme mudo e em preto e branco. O filme não só foi um sucesso, como também incentivou a sociedade da era digital a assistir a filmes mudos, dando espaço para iniciativas, como o projeto Cinema Mudo da Fundação Carlos Gomes, que viaja cidades do interior exibindo filmes de Chaplin com uma trilha sonora tocada ao vivo, como no passado.

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O cinema emociona e envolve a todos nós espectadores há cerca de um século. Nesse meio tempo, ele vem inovando e surpreendendo aos espectadores cada vez mais. Há quem diga que vivemos a era do pós-cinema, onde filmes podem ser totalmente produzidos num computador. E, apesar de todas as inovações tecnológicas, o cinema mudo mostra que a beleza do cinema não está na tecnologia usada, mas sim na arte de emocionar.


Larissa Mota Calixto

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