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Dialogos com cinema e outras artes...

Larissa Mota Calixto

Escritora que adora jazz, folk, dias chuvosos, conversas interessantes e cinema.

Cinema e inclusão

A palavra é inclusão. A inclusão deveria ser a palavra de ordem da nossa sociedade que é cheia de novidades, estímulos e manifestações artísticas, embora não para todos. Como um cego e um surdo podem assistir a um filme ou a uma peça teatral? Vocês já se perguntaram? Será que é justo tais pessoas não terem acesso à beleza da arte por terem necessidades diferentes das nossas? Pensando nisso, Rafael Coelho e Claudia Moraes criaram uma oficina de cinema voltada para surdos, nascendo daí três curtas-metragens.


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Bem, de algum tempo para cá, é possível ver iniciativas de tornar a arte mais acessível a todos, incluindo cegos e surdos. O filme Signo da cidade, do diretor Carlos Alberto Ricceli, foi lançado em 2007 e é totalmente adaptado com áudio descrição e legenda apropriada para os surdos. Para quem não sabe aquela legenda que costumamos ver em filmes de outros idiomas não são exatamente a mais adequada para eles, pois, o português da linguagem de libras possui muitas diferenças do português fonético — ele é mais simples. Por exemplo, nas libras, não tem a conjugação verbal como a conhecemos. Outro filme muito especial é Colegas, do diretor Marcelo Galvão, que conta a história de três amigos portadores da Síndrome de Down, fãs da sétima arte, que fogem do instituto onde viviam para realizar seus sonhos. O filme mostra como os portadores da Síndrome de Down enxergam o mundo e, o mais interessante é que ele dá espaço para jovens atores, também portadores da síndrome, mostrarem do que são capazes.

Outra iniciativa de inclusão foi a da empresa Pagina 21 de Recife, que criou na cidade de Petrolina-PE uma oficina audiovisual voltada para pessoas surdas com o objetivo de criar curtas-metragens. Desse trabalho, nasceram dois curtas de ficção: Amizades Surdas, dirigido por Carmela Correia, e A volta por cima, dirigido por Shaiane Oliveira, e mais um curta documentário, Olhar surdo, por Carmela Correia e Shaiane Oliveira — ambas surdas.

No dia 28/07, aconteceu o lançamento do curta documentário Olhar surdo, que fala sobre a dificuldade de comunicação entre os deficientes auditivos e o mundo dos sons. Ele nos mostra também que os surdos são capazes de desempenhar atividades braçais, como em geral desempenham. A produção foi exibida durante o Aldeia Velho Chico, evento promovido pelo SESC da região. No dia 29/07, encontrei-me com os idealizadores do projeto Rafael Coelho e Claudia Moraes que desempenharam o papel de orientadores e coordenadores da oficina, além das diretoras Carmela Correia e Shaiane Oliveira. Com a ajuda e colaboração da intérprete Ana Paula Sousa, tivemos uma conversa muito bacana sobre a experiência de dirigir três curtas-metragens.

IMG_0451.JPGFoto de Luan Magno (Shaiane, Ana Paula, Carmela e Rafael)

Entrevista:

Obvious: Meninas, como surgiu essa oportunidade de realizar esses curtas? Carmela: Essa ótima oportunidade foi divulgada na escola onde os alunos surdos, que tiveram interesse, podiam se inscrever. Mas, até aquele momento, a gente não sabia direito qual seria a oficina. Nós nem imaginávamos que iriamos fazer curtas. Durante essa oficina, fizemos pesquisas, tivemos discussões e acesso ao conhecimento técnico para depois chegarmos a esse resultado.

Obvious: Vocês pretendem levar esse curta documentário para algum festival?

Shaiane: Sim, nós queremos mostrar esses trabalhos, porque quanto mais pessoas assistirem a esse vídeo documentário é melhor para a gente difundir a questão da linguagem dos sinais e da cultura surda. Então, nós queremos sim divulgar e mostrar esse vídeo em festivais e, quem sabe, futuramente participar da produção de um filme, como foi falado ontem. Assim, pretendemos mostrar que nós surdos também somos capazes de nos profissionalizarmos e desenvolver atividades profissionais também dentro do teatro e do cinema. Então, a gente não para por aqui e vai continuar lutando para conquistar mais espaço. Obvious: Tem cenas no documentário em que o silêncio domina a cena. Qual foi a intenção desse silêncio?

Carmela: Bem, foi discutido no grupo que, para mostrar e para causar impacto nos espectadores, provocando uma angústia e um certo constrangimento em fazê-los ver cenas com a linguagem de sinais, uma linguagem diferente, que eles não podiam compreender. A intenção foi de causar essa angústia que é a mesma que nós sentimos em sociedade quando as pessoas estão lá se comunicando, assistindo a algum programa na TV e nós não compreendemos mesmo tendo a legenda. Então, foi como se fosse uma troca de papéis: a gente estava lá entendendo tudo. Quem não compreendesse a língua dos sinais sentiria essa angústia e, assim, entenderia que ali se trata de outra línguagem e, quem sabe, despertaria a vontade de aprender a nossa linguagem.

Obvious: No Brasil, algumas iniciativas para favorecer a acessibilidade à arte vem sendo tomadas. Em Campinas-SP, o museu da Imagem e Som o MIS, promove desde 2005 sessões de cinema áudio-descritas. Existe algum projeto semelhante em andamento na cidade de Petrolina? Shaiane: Ainda não. Não tenho conhecimento de um projeto assim. Então, com esse vídeo documentário é um passo. A gente quer difundir e mostrar esse documentário para a sociedade e, quem sabe assim, sensibilizar as pessoas das artes, do teatro e do cinema, fazendo com que elas tenham um novo olhar e, assim, promovam essa acessibilidade de comunicação às pessoas surdas. A gente tem interesse de participar das artes, ir ao museu, ao cinema, ao teatro, só que, por conta da falta de acessibilidade, a nóa acabamoa ficando de fora. Nós queremos ter essa acessibilidade concretizada. Porque quando nós formos ao museu, quem vai nos explicar as coisas? Nós vamos ao cinema e ao teatro e não tem uma linguagem de sinais. Então, com esse vídeo, a gente quer levar as pessoas a se educarem para que a gente seja respeitado na sociedade. Obvious: Aqui no Brasil, teve um filme chamado o signo da cidade que foi dirigido por Carlos Alberto Ricceli, totalmente adaptado para pessoas cegas e surdas. Temos também o filme Colegas, do Marcelo Galvão que foi lançado no ano passado e é composto por um elenco de pessoas portadoras da Síndrome de Down. Vocês acreditam que estamos começando a engatinhar para uma inclusão maior no mundo das artes? Shaiane: Eu acredito que sim. Algumas pessoas que estão lá tem esse olhar mais sensível e outras não, outras não estão nem aí. Tem aquelas pessoas de mentalidade aberta e outras não. Tem pessoas que respeitam a forma dos surdos se comunicarem e tem outras que não. Acredito que a inclusão nas artes é uma questão de tempo, que isso pode vir a melhorar. Nós estamos até dando alguns passos. Em outros lugares, isso está nascendo agora, mas, acredito que vai demorar. Devagarzinho a gente consegue chegar lá.

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Obvious: O projeto nasceu a partir de uma oficina lançada pela empresa pagina 21. Tem algum outro projeto semelhante em andamento? Rafael: Existe sim. Atualmente a gente “tá” fazendo uma oficina semelhante em Recife. São duas oficinas com duas turmas diferentes e a gente terminou uma, só falta montar e a gente vai fazer uma segunda. São oficinas parecidas com essa de Petrolina, mas como a carga horária diferente. O resultado final (tempo de exibição) vai ser um pouco menor. Essa tinha 15 minutos e a ideia é que oficina de Recife produza dois vídeos de 10 minutos cada um. Já para o futuro, existe a ideia de fazer essa interação entre o surdo e o cego. A ideia é que eu e a Claudia Moraes, minha sócia, consigamos nos preparar para fazer uma oficina igual a essa para cegos e aí consiga ter alguns resultados. Óbvio que esse é um processo extremamente lento. Primeiro, por conta da nossa preparação e das pessoas que trabalharão conosco. O outro passo é criar uma metodologia, criar um material didático como o criado para essas oficinas. E o terceiro passo é a captação de recursos, que é um processo lento, ocorrendo invariavelmente através de editais ou do governo ou de algumas instituições maiores como bancos, empresas grandes que fazem editais e eventualmente tem projetos de inclusão dentro deles. Então, isso é um projeto para cerca de cinco ou seis anos. E depois, seria uma terceira oficina adaptada para surdos e cegos, ao mesmo tempo, que conseguisse produzir um trabalho áudio visual, sendo um documentário ou uma ficção produzida por cegos e surdos juntos num mesmo set. Só que isso é uma ideia maluca, verdade, porque precisa de muita preparação, muito planejamento, que eu acredito que seja uma coisa possível. Dentro de talvez uns dez anos.


Larissa Mota Calixto

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