grand café

Dialogos com cinema e outras artes...

Larissa Mota Calixto

Escritora que adora jazz, folk, dias chuvosos, conversas interessantes e cinema.

Para sempre teu o mais intimo dos meus eus...

"Percebo que não temos conversado tanto, e fico me perguntando quando exatamente parei de me saber? Será que sabemos essa exata hora em que, na ânsia de nos vermos tão misturados, complementados pelo outro (essa suposta ‘metade’ de nós que decidimos acreditar como sendo o que nos falta para sermos inteiros), não percebemos que estamos nos desintegrando de nós mesmos? É apego que, em si, é a maior das traições ao sonho assumido em pacto. ‘Ai, quero eu, os sentimentos vastos não tem nome’. Desabei e me vi em completa paralisia externa. Comecei uma trilha para tão longe de mim mesmo(...)"(Trecho retirado do programa do espetáculo, texto de Renata Pimentel, onde vem citado trechos de: A alma imoral, obra de Nilton Bonder; e A obscena senhora D., obra de Hilda Hilst.)


1209135_331025270368085_123098852_n.jpgFoto de Lizandra Martins

Numa noite de quinta-feira, fui ao teatro para assistir a um espetáculo bem diferente do que eu estou habituada. Não se tratava de uma peça teatral, nem de uma apresentação musical. Fui assistir a um espetáculo de dança contemporânea — manifestação artística, da qual não sou uma das maiores fãs.

Entrei na sala de teatro e deparei um cenário bastante enevoado, onírico. Agora eu não estava em qualquer lugar, adentrava outro universo. Sentei-me na poltrona, acenderam-se as luzes do palco e tudo ficou sombrio.

971592_331024800368132_305699503_n.jpgFoto de Lizandra Martins

Logo uma melodia se fez ouvir, acompanhada por um dos seis bailarinos cuja dança buscava representar alguns dos mais profundos conflitos humanos. Ouvi, uma vez, que a dança é uma poesia não pronunciada e, pela primeira vez, pude constatar isso num espetáculo de dança contemporânea no qual se dá uma desconstrução do clássico, dotado de técnicas infinitas e movimentos específicos. Na dança contemporânea, o que existe é a liberdade de expressão a partir dos movimentos. O próprio intérprete pode trazer a sua contribuição e, muitas vezes, é livre para improvisar. No espetáculo, Para sempre teu, da companhia de dança Qualquer um dos dois, SESC- Petrolina, o diretor conta que os bailarinos tiveram sim a liberdade de trazer seus próprios movimentos para a coreografia.

No palco, os dançarinos deixaram de ser únicos e passaram a ser o nosso espelho, refletindo nossos conflitos mais profundos. Eles buscavam um eu perdido em meio a uma sociedade de valores invertidos, com padrões pré-determinados. Vivemos numa constante briga com nós mesmos em busca do autoconhecimento e, a um só tempo, temos uma sociedade inteira exigindo posturas. Uma sociedade à qual buscamos agradar o tempo inteiro. Assim, nós nos perdemos e nos sufocamos.

1185368_331024900368122_1254993592_n.jpgFoto de Lizandra Martins

O diretor Jailson Lima toca o nosso mais profundo eu por meio de movimentos leves e intensos que expressam, muitas vezes, a solidão e a angústia de cada um. Em outros, ele nos revela o caos interior, nossa busca por liberdade. A iluminação sombria, o jogo de som e silêncio são outras ferramentas utilizadas pelo diretor para adentrar o universo particular de seus espectadores.

No final, uma luz de esperança se acende, num renascer metaforizado pela troca da cor fria — o cinza das camisas dos bailarinos — pelo vermelho intenso. Além disso, um dos dançarinos finalmente consegue se libertar de todas as pressões do nosso mundo e do nosso próprio eu e seguir livremente, caminhando para a coxia e deixando todos os conflitos para trás. Certamente, quem entrou naquele espetáculo não saiu o mesmo.

Segundo o diretor, a priori, a ideia era representar, na dança, alguns contos do escritor Caio Fernando Abreu, de quem se diz grande fã. Aos poucos, a coreografia foi criada, os bailarinos trouxeram suas contribuições, a iluminação discutida e o figurino pensado, até que a homenagem a Caio Fernando Abreu transformou-se numa expressão própria de Jailson sobre a vida moderna e seus conflitos que, afinal, pertencem também a todos nós.

P.S: Estas são palavras sobre um olhar particular.

Conheça agora alguns dos nomes que concretizaram esse lindo espetáculo:

Bailarinos: Alexandre Santos, André Vítor Brandão, Adriano Alvess, Cleybson Lima, Wendell Brito, Rafael Sisant.

Dramaturgia: Renata Pimentel

Figurino: Maria Agrielli

Design de luz: Luciana Raposo

Direção: Jailson Lima


Larissa Mota Calixto

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