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Dialogos com cinema e outras artes...

Larissa Mota Calixto

Escritora que adora jazz, folk, dias chuvosos, conversas interessantes e cinema.

Yeti, um duo inovador de post-rock

Na terra do maracatu, capital do frevo nasce uma banda de post-rock. O Yeti ganha espaço criando uma música original com influência da música inglesa.


971019_302457596555377_1577187038_n.jpgFotografia de Dandara Palankof

Pernambuco é um estado plural. Terra onde brota uma arte própria e original de todos os cantos, seja do sertão, com o maracatu ou samba de roda, seja da capital com o frevo, considerado Patrimônio Imaterial da Humanidade pela UNESCO. Recife é uma capital de criação e de encontros. Nela, nasce um cinema referência em produção artística cinematográfica e surgem também nomes da música, trazendo propostas próprias e diferenciadas.

Foi em Recife que brotou o Yeti, duo que toca um rock experimental, que pode ser denominado de post rock. Mas o que seria isso? Pós-rock ou post-rock, subestilo do rock, no qual se mesclam o jazz, o blues e o eletrônico. O estilo surgiu na década de 90 com bandas como Bark Psychosis, Slint, Radiohead e outras.

O Yeti nasceu no ano passado, tem um EP lançado com o selo da Sinewave e um disco em produção. Depois do lançamento do Terminal, veio o convite para integrar um selo belga Tape Safe de bandas experimentais. Com isso, eles conseguiram espaço em programas de rádio, chamando atenção da mídia nacional e de blogs de países, como Japão, por exemplo, apresentando uma qualidade musical original e instigante, capaz de nos conduzir a uma experiência ímpar de sensações. Sem dúvida, os rapazes Fernando Athayde (guitarra) e Joaquim Francisco (bateria) nos revelam uma nova faceta de composições musicais que não se rendem às tendências massificantes do mercado cultural brasileiro. Eles pertencem a um grupo de músicos do cenário alternativo compromissados com a apaixonante experiência da criação artística independente. Confira a entrevista com Fenando Athayde o guitarrista da banda:

Obvious - A banda de vocês ainda é uma banda bem nova, com um EP lançado, o Terminal. Você poderia contar um pouco sobre a trajetória de vocês? Fernando Athayde - Eu e Chico nos conhecemos em 2011, quando nós e mais dois amigos fundamos a banda de post-rock, Fitrah. A banda existiu durante um ano, fez um show e lançou um EP. Em meados de 2012, porém, eu e Chico decidimos nos desligar para continuarmos tocando como um duo. Daí nasceu o Yeti. No intervalo de um mês, nós compusemos e gravamos o Terminal, nosso EP de estréia, que, apesar de ter sido produzido em novembro de 2012, só foi lançado em maio desse ano.

Obvious - Ao ouvir o EP Terminal, ouvi algo muito particular, único. Percebi uma mistura psicodélica com um pouco do jazz, um pouco do blues, do eletrônico e mais um pouco de rock experimental, puxando talvez para o Radiohead, o que costuma ser denominado como post-rock ou pós-rock. Você enquadraria a banda como post-rock ou ela ainda está definindo o seu perfil?

Fernando Athayde - Não sei... A gente ouviu um pouco de post rock na vida, mas definitivamente o que nós fazemos não tem muita semelhança com Mogwai ou Explosions in the Sky. Uma vez Chico me disse que aquilo que ele buscava como instrumentista era tocar de um jeito único, totalmente pessoal. Para mim, vale a mesma coisa. Nossa música é uma reação ao lugar que vivemos e à relação que temos com as pessoas. Isso não necessariamente está atribuído a uma complexidade valorativa, porque, no final das contas, é só som, mutável na medida em que nós sentirmos necessidade.

969144_323585284442608_1487997433_n.jpgDesenho de Fernando Athayde

Obvious - O Yeti segue uma linha musical bem semelhante a do Fitrah até o momento. Você acredita que isso aconteça por conta do pouco tempo de desligamento com o Fitrah?

Fernando Athayde - Duas das três faixas do nosso EP, Terminal, chegaram a ser tocadas pela Fitrah algumas vezes. A verdade é que tudo é um processo de lidar com o desconhecido, quando o assunto é música. Chegou um ponto em que eu e Chico estávamos tão empenhados em destrinchar uma gama de intervalos harmônicos/melódicos e rítmicos que, para que a coisa engrenasse, decidimos ficar sozinhos.

Obvious - Eu conheci o som de vocês a partir de um site chamado Ride into the sound, com o post chamado "15 discos lançados em 2013 que você precisa ouvir". Lá estava o EP Terminal, com três músicas que me deixou com aquele sentimento de quero mais. (risos) E aí, o novo disco tem previsão pra sair?

Fernando Athayde - Nós estamos trabalhando bastante para que o disco seja lançado em janeiro. Não lembro quando foi o último dia em que eu e Chico não nos falamos. Todo dia a gente bota os miolos pra funcionar. Acho que nunca nos dedicamos tanto a um propósito quanto estamos no dedicando a esse disco. Ele já foi todo composto, por sinal. Nós estamos mesmo fazendo uma longa pré-produção e juntando uma grana, para que tudo saia dentro dos conformes.

Obvious - Nos tempos do Fitrah vocês fizeram uma apresentação no festival o Último Festival Psicodélico do Ano, onde a apresentação de vocês contou também com todo um trabalho visual com jogos de luzes e efeitos. Você poderia falar um pouco sobre os objetivos do trabalho visual dos shows aliado com a música? Fernando Athayde - Essa experiência da Fitrah foi uma bela de uma surpresa, porque eu nem sabia que ia ter aquela iluminação e nem percebi que o show estava sendo filmado. Só vi depois (risos). Com o Yeti, a gente sempre pensou em conceber um material audiovisual. Mais que uma tendência midiática, é fundamental para nós, que somos um duo e precisamos ser vistos como tal. Mas, tirando esse papo furado de conceitos, aforismas e outras besteiras, a grande verdade é que trabalhar com vídeo é uma coisa divertida para caramba e faz bem pro projeto.

Obvious - Esse ano o Yeti irá tocar no Ultrassutra, em Recife. O que podemos esperar desse show?

Fernando Athayde - Volume.

970668_302457423222061_350509616_n.jpgFotografia de Dandara Palankof

Obvious - Além de músicos vocês também são desenhistas, certo? A arte da capa foi feita por vocês? Como ela foi pensada?

Fernando Athayde - Chico tatua profissionalmente há algum tempo e eu, na medida do possível, tenho trabalhado com quadrinhos. Eu desenhei a nossa capa numa pressa miserável, pra ser sincero. Na ocasião, a gente tinha lançado só os vídeos e nem tinha mandado o material para a imprensa, mas Lucas Lippaus, do nosso querido parceiro, o selo paulista Sinewave, ouviu e, em quinze minutos, me perguntou se não seria massa lançar aquilo em formato de EP. Uns dias depois eu desenhei a capa e outras três variações dela, que hoje estão expostas na nossa fan page. Graficamente, ficou meio rabugento, eu acho. A capa do disco vai ser mais legal.

Obvious - Conte um pouco sobre as propostas para integrar selos internacionais como o Sinewave e o Tape Safe e como isso contribui para dar um ponta pé inicial na divulgação do EP Terminal. Fernando Athayde – Eles nos chamaram e a gente foi. A coisa não “tá” fácil pra ninguém, especialmente pra quem trabalha com música autoral. As pessoas se ajudam. Esses selos são uma reação ao momento em que vivemos, onde a internet proporciona todo e nenhum espaço ao mesmo tempo. Eles são bastante interessantes, pois servem como ponte entre o público e o artista. Infelizmente e curiosamente, porém esse público é quase sempre formado exclusivamente por artistas, já que grande parte das pessoas não está preocupada em fazer a distinção entre arte e entretenimento. Assim, a coisa acaba ficando específica.

Obvious - Para encerrar, gostaria de saber como é para vocês fazer uma música diferenciada num país onde arte tem sido tão pouco valorizada? Fernando Athayde - O processo prático de fazer som independe de onde e em que circunstâncias nós vivemos. A gente faz música porque necessita disso. Ainda assim, é uma merda que a turma toda esteja pagando cinquenta paus pra ir ver um show de Nando Reis e Capital Inicial, na esperança de tomar uma cachaça e arrumar sexo com desconhecidos, mas se recusa a dar vinte contos pra ver um show de música autoral, produzida em Recife. Esse tipo de coisa dá vontade de chegar em casa e se matar. Sério.

Página no facebook: https://www.facebook.com/duoyeti?fref=ts

713 Hemetery's Bomb - Yeti:

910 Sweet River/Mercy - Yeti:

216 Clay/Pleasures - Yeti:


Larissa Mota Calixto

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