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Dialogos com cinema e outras artes...

Larissa Mota Calixto

Escritora que adora jazz, folk, dias chuvosos, conversas interessantes e cinema.

O maior escândalo da história da dança

Há cerca de cem anos um dançarino resolveu arriscar e criar uma coreografia, que entrou para história como o espetáculo mais tumultuado da história da dança, um verdadeiro escândalo. Ali os primeiros passos rumo à dança contemporânea foram dados.


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O ano é 1913, Paris vivia a Belle Époque, sendo o ponto de encontro dos grandes intelectuais e de artistas renomados da época. A Europa fervilhava em todos os sentidos. Na política, o clima era de tensão, a primeira grande guerra se aproximava, países faziam alianças e se armavam. Em contrapartida, nas artes o clima era de anseio pelo novo, criatividade e uma constante busca por uma linguagem própria e única. Por isso, muitos artistas retornavam às raízes de suas pátrias na tentativa de se resgatar uma identidade esquecida — tal movimento era fruto do ufanismo que se espalhava pelo continente europeu —. Nascia o modernismo num século de grandes mudanças.

Na noite de 29 de maio, o teatro da Champs-Élysées estava lotado. Na platéia estavam presentes nomes como Pablo Picasso, Gertrude Stein, Marcel Proust, Jean Cocteau e muitos outros nomes entre artistas, intelectuais e aristocratas. Todos foram ao teatro para assistir ao Ballet Russe. O espetáculo daquela noite entraria para a história.

Tal companhia nascera em 1909 na Rússia, com Serguei Diaghilev, reunindo dançarinos do inigualável Teatro Bolshoi, de Moscou e do Teatro Maryinsk, de São Petersburgo, entre eles estavam Anna Pavlova e Vaslav Nijinsky, que trouxeram o reconhecimento e a consagração do grupo. Além deles, o Ballet Russe contava com o visionário compositor Igor Stravinsky, que tornou o balé conhecido pelas inovações na música e o coreógrafo Michel Fokine, criador dos espetáculos que tirou a companhia da estagnação — As sílfides (1909), O pássaro de fogo (1910), Sheherazada(1910), O espectro da rosa (1911) e Petrushka (1911)—.

page.jpg Ninjisky à esquerda e Stravinsky à direita

Em 1911 Igor Stravinsky conta a Serguei Diaghilev sobre um sonho inspirador, onde uma virgem era escolhida para ser sacrificada ao deus da primavera, com a finalidade de garantir a colheita do seu povo. A partir daí Stravinsky compôs a Sagração da primavera, que levou cerca de dois anos para ficar pronta. Sua criação era intensa com percussão marcante e influências de músicas folclóricas da Rússia e da Lituânia. Ele compunha algo que jamais fora escutado na música clássica. O músico empregou polirritmias — existência de dois ou mais diferentes ritmos — e politonalidade — sobreposição de melodias cada uma com uma tonalidade distinta — tais novidades abririam as possibilidades de exploração sonora para compositores da segunda década do século XX em diante.

“Não fui guiado por nenhum sistema quando escrevi ‘Le sacre du printemps’. Só tive meus ouvidos para me ajudar. Ouvia e escrevia o que ouvia. Fui o vaso através do qual ‘Le sacre’ passou.” Igor Stravinsky.

Ao ouvir a nova obra de Stravinsky, Serguei Diaghilev decidiu criar um espetáculo baseado no sonho do compositor, utilizando aquela música extremamente intensa. Logo ele convidou o bailarino Vaslav Ninjinsky, solista da sua companhia, para compor o bailado em vez de Folkine, que era o coreógrafo oficial até então. Ninjisky conhecido por dar saltos inimagináveis, era um dos melhores bailarinos de seu tempo e havia coreografado apenas uma vez. O espetáculo O entardecer do fauno(1912), com a música do compositor francês Debussy, tal criação também não fora bem recebida. A singularidade das obras do jovem bailarino causava muita estranheza, ele não tinha medo de arriscar. Diaghilev certamente sabia que a Sagração da primavera seria um escândalo.

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Os passos foram criados fora dos padrões do balé clássico, sendo seus movimentos característicos em en dehors (abertos, para fora), substituídos por movimentos em en dedans (fechados, para dentro), considerados até então “indançaveis”. Os bailarinos estranhavam e tinham grande dificuldade em concretizar aquela dança tão feia, esquisita e primitiva. Quem assistia aos ensaios dizia que os dançarinos pareciam bestiais. A maior parte do que faziam era correr, pular e bater com os pés, geralmente em formações massivas, sendo os movimentos repetidos infinitas vezes.

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Na noite de estréia todos estavam apreensivos. A coreografia não tinha a elegância do balé clássico, o tema, o figurino e o cenário faziam referência ao que muitos consideravam primitivista e a música era intensa de uma maneira inédita, portanto era imprevisível qual reação causariam.

A orquestra começou a tocar com uma introdução suave feita pelo fagote, instrumento sem muito destaque nas orquestras até o momento, a música significava o despertar da primavera. A platéia que tinha acabado de assistir a um espetáculo ao som de Chopin, começou a estranhar. Quando as cortinas se abriram e a apresentação começou os espectadores se revoltaram e o caos tomou conta do ambiente.

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As pessoas raivosas gritavam, vaiavam, xingavam e a Condessa de Pourtalés, sentia-se ofendida e gritava raivosa que nunca tinha sido tão ofendida em toda a sua vida. Os risos de deboche e as vaias furiosas se misturavam ao som dos aplausos defensores do espetáculo. Com o caos instalado no ambiente, a música se tornou inaudível, porém o maestro continuou firme. Na coxia, Ninjinsky pálido e assustado com a fúria que o seu espetáculo havia causado, gritava a marcação do tempo para os bailarinos não se perderem e prosseguirem. Numa tentativa de acalmar a platéia acenderam-se e apagaram-se as luzes do teatro inúmeras vezes, nada resolvia. O povo estava férvido como nunca e mesmo assim, em meio a balbúrdia, Pablo Picasso conseguia se concentrar e desenhar tranquilamente no seu caderninho. Até a polícia foi chamada e cerca de quarenta pessoas foram expulsas do espetáculo. Um verdadeiro terremoto parecia ter atingido o teatro. Apesar de tudo, o espetáculo chegou ao fim marcando o início de uma nova era da dança e da música.

Depois da lendária apresentação, outras quatro aconteceram, sendo mais uma em Paris e as demais em Londres, todas elas foram bem menos conturbadas, a platéia foi mais respeitosa, porém poucos saíram satisfeitos. Logo após tudo isso, veio a primeira grande guerra que separou a companhia. Os bailarinos retornaram aos seus lares e Ninjinsky foi para os Estados Unidos. Quando a guerra chegou ao fim, o desejo de reapresentar o marcante espetáculo estava vivo, porém a coreografia tinha se perdido. Ninjinsky foi diagnosticado com esquizofrenia, portanto outro coreógrafo foi chamado para recriar os passos da obra.

Apenas em 1987, após uma minuciosa pesquisa, a coreógrafa Millicent Hodson conseguiu reconstituir a obra mais inovadora do início do século XX. Desde o fim da segunda guerra, a Sagração da primavera teve várias reconstruções e recriações. No ano de 2013 foi o seu centenário e várias homenagens foram realizadas pelo mundo incluindo aqui no Brasil. O Teatro Municipal do Rio de Janeiro e o Teatro Castro Alves em Salvador, fizeram as suas recriações com grandes nomes da dança, as apresentações ocorreram no mês de setembro, início da nossa primavera.

Filmes, onde você poderá visualizar o que aconteceu naquela conturbada noite de estreia:

Riot at the rite – BBC, 2005.

Coco Channel e Igor Stravinsky — Jean Kounen, 2009. (Primeiros minutos do filme)


Larissa Mota Calixto

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