grand café

Dialogos com cinema e outras artes...

Larissa Mota Calixto

Escritora que adora jazz, folk, dias chuvosos, conversas interessantes e cinema.

Violinos e violoncelos de metais

“Se os governos investirem em educação, até o lixo serve!” - Flávio Chávez


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Todos os dias, descartamos objetos que já nos parecem inúteis, desconsiderando o destino que terão para, em seguida, consumirmos mais do que também se afigurará como lixo num ciclo interminável. Do lixo que produzimos, entretanto, passaram a depender muitas famílias em condições precárias. Esse triste fato se repete em diversas partes do mundo e inclusive nas cidades em que vivemos.

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Cateura é uma comunidade que cresceu ao redor do maior aterro sanitário de Assunção, capital do Paraguai. Lá vivem milhares de pessoas à margem da sociedade, esquecidas pelo governo e ignoradas pelo restante da cidade, tirando o seu sustento, muitas vezes, do lixo.

Em meio a toda pobreza daquela região, a arte veio a se manifestar como contraponto, provando, mais uma vez, o quanto pode se tornar um fascinante mecanismo de transformação social, recorrente em algumas histórias.

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Anos atrás, um aficionado por música, Flávio Chávez, foi trabalhar no centro de reciclagem da comunidade de Cateura, através da qual tomou contato com a realidade das crianças que ali viviam cercadas de toda sorte de necessidades. Tempos depois, criou uma escola de música com alguns instrumentos emprestados. Aos poucos, o número de interessados foi crescendo de uma maneira inimaginável e, muitos jovens que buscavam uma nova perspectiva de vida, passaram a frequentar as aulas, mantendo-se longe da criminalidade. Com isso a demanda de instrumentos aumentou e foi então que Flávio e o catador Nicolás Gómez viram-se diante de uma ousada alternativa: encontrar a solução desse desafio no lixão. Nascia, por assim dizer, a Orquestra de Instrumentos Reciclados de Cateura. Isso mesmo: instrumentos reciclados!

Hoje, os jovens do subúrbio de Asunción maravilham o mundo com seus instrumentos inusitados. Eles já tocaram nos Estados Unidos, na Europa e aqui no Brasil. Chegaram a executar músicas clássicas de compositores, como Mozart, Beethoven, Vivaldi e até músicas inesquecíveis de Sinatra ou ainda a bela Yesterday, dos Beatles. A versatilidade de seus instrumentos e do repertório musical do grupo chamou atenção da banda de heavy metal Megadeth, que, por sua vez, promoveu um show com participação da orquestra.

Além de deleitar o público com suas belas versões, tocadas em violinos e violoncelos metálicos, o grupo desperta reflexões acerca de assuntos extremamente importantes que, por vezes, tentamos ignorar, como o fato de adotarmos um estilo de vida baseado num consumismo desenfreado, responsável por desigualdades gritantes e pela produção de toneladas de lixo sem um destino apropriado. O que fazer?

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Será que devemos continuar fechando os olhos para problemas tão reais? Ou será que chegou a hora de nos reavaliarmos e descobrir o que realmente é importante?

Flávio, Nicolas, os jovens músicos e todos que deram vida a esse belo projeto, que mudou e continua mudando vidas através de uma das mais puras e belas formas de arte merecem ser aplaudidos de pé. Torcemos para que ideias brilhantes como essa continuem surgindo e se propagando pelo mundo.

Alguns vídeos:


Larissa Mota Calixto

Escritora que adora jazz, folk, dias chuvosos, conversas interessantes e cinema..
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