grand café

Dialogos com cinema e outras artes...

Larissa Mota Calixto

Escritora que adora jazz, folk, dias chuvosos, conversas interessantes e cinema.

Anônimo ele, Anônimo você, Anônimo eu, Anônimo nós...

O espetáculo Anônimo faz um retrato do homem contemporâneo, representando o cotidiano de um personagem solitário e atônito dentro de seu mundo impessoal no qual apenas uma plantinha lhe despertava algum sentimento. Ela era sua única companhia, o único ser vivo no mundo frio e sombrio que o cercava, ou seja, seu único elo com a vida.


998753_10201379641468706_2021541561_n.jpg Foto de Renata Pires

A peça, apesar de não utilizar de falas, nos diz muito com o seu jeitinho minimalista, valendo-se de gestos que nos mostram a vida de um personagem que parece estar alheio à sociedade por medo ou por pressões que não ficam explícitas, legando ao público a livre interpretação. Segundo o ator Eduardo Albergaria, a ideia foi dar ao espectador a maior liberdade de interpretação possível. Por isso, o espetáculo nos mostra uma situação “x” e os porquês ficam a critério de quem o assiste. Isso é o mais incrível. A obra, em momento algum, subestima o seu público. Muito pelo contrário, ela o instiga e provoca a todo momento.

Numa conversa com o ator, perguntei sobre o processo de criação e me surpreendi ao perceber que, também no teatro, a obra parece tomar forma por si mesma. Na escrita, por exemplo, quase sempre achamos que sabemos exatamente aquilo que vamos falar, mas, ao final do texto, notamos um resultado completamente diferente. O texto parece ganhar vida e se moldar a partir de um determinado ponto, como agora, enquanto escrevo. Já não tenho domínio absoluto sobre ele, sobre as palavras. O mesmo aconteceu com Eduardo e o diretor Vinicius Torres Machado enquanto criavam o espetáculo.

O Eduardo conta que em 2006 estava trabalhando muito como iluminador e começou a pensar em fazer um trabalho solo que, a priori se tratava de uma cena de oito minutos de palhaço, completamente diferente do que o trabalho se tornaria. Apenas em 2010 quando a ideia de fazer um espetáculo sobre um professor já estava começando a se encaminhar, surge a ideia de se retratar o cotidiano de alguém muito esquisito que até então seria o professor, que iria para o trabalho e lá algo aconteceria. Porém, a ideia estava em fazer com que o público primeiro observasse o personagem e, depois, adentrasse sua mente. O Anônimo começava a ganhar forma. Eduardo e Vinicius foram conversando a partir dessa ideia e resolveram montar o cenário. Com o cenário, a cena do professor perdeu força e a ideia de se mostrar o cotidiano de alguém esquisito prevaleceu. A obra foi se moldando, assim como sua própria personalidade, nutrindo-se das experiências e dos conhecimentos do ator e do diretor até se tornar belíssima, altamente minimalista, desde sua criação até o resultado final e atraindo a atenção do público para cada movimento que o personagem realiza, seja ele um movimento brusco ou um simples gesto com a mão. A beleza está no trajeto de cada gesto.

528806_4097385028669_1363875617_n.jpg Foto de Daniel Pátaro

Outro elemento do espetáculo que não foi pensado e calculado, mas, construído durante o processo de criação, foi a não utilização das falas. Até três dias antes da estreia, o personagem ainda falava. Pouco a pouco, sua voz foi sendo substituída pelos elementos gestos, pela música e pela mudança de luz ao longo dos ensaios, conferindo-lhe um ar poético ao retratar aquele homem em completa solidão.

Solidão: uma circunstância inquietante no cotidiano daquele personagem e de muitos na nossa sociedade. Vivemos num dilema entre a solidão e a aldeia global onde todos estão interligados. Acredito que, nesse ponto, os artistas põem um pouco da sua alma e sentimentos que os cercavam no momento da criação. Eduardo conta que gosta da solidão, de fazer coisas sozinho (a solitude), porém, no momento da elaboração do espetáculo, ele e o diretor passavam por um momento de solidão. Viviam a solidão causada pela perda. Essa é a intersecção entre sentimentos de público e artista. Ali eles demonstram seus sentimentos mais profundos e acabam dialogando com o público, pois, todos já vivenciaram ou vivenciam essa experiência. Então, traça-se o perfil do homem contemporâneo e o Anônimo passa a ser qualquer um que ali esteja assistindo ao espetáculo.

527993_4097387188723_1705394573_n.jpg Foto de Daniel Pátaro

Para o ator e o diretor, o personagem estaria entre a vida e a morte num hospital. A plantinha seria seu elo com a vida e o despertador, que o atormenta algumas vezes durante o decorrer do espetáculo, poderia ser o momento em que a enfermeira viria medica-lo. Só que essa é uma história para nortear o ator e a construção do cenário, assim como a estrutura do próprio espetáculo. A ideia, não que pensemos assim ao assisti-lo, seria deixar a livre interpretação predominar. Anônimo pode ser o paciente no hospital ou apenas um homem solitário, fugindo da realidade angustiante ou, ainda, qualquer outro cuja imaginação lhe permita vivenciar tal experiência. E assim a arte nos mostra o quanto pode ser surpreendente não só para o seu público mas também para os seus criadores.

12.jpg Foto de Leonardo Valerio

FICHA TÉCNICA:

Solo de Eduardo Albergaria

Direção e Dramaturgia: Vinícius Torres Machado

Direção Musical: Rui Barossi

Figurino: Eliseu Weide

Iluminação, Cenografia e Concepção: Eduardo Albergaria

Consultor Técnico: Marcos Pinto (Marcuti)

Produção: Grupo Peleja

Duração: 40 min.

Classificação: 12 anos

Página no Facebook: https://www.facebook.com/grupopeleja?fref=ts

Site do Grupo Peleja: http://www.grupopeleja.com.br/

Hoje o espetáculo está na grade do Palco Giratório que é um projeto do SESC, que tem como objetivo proporcionar uma troca entre as produções artísticas de todos os estados do Brasil. São escolhido 18 espetáculos para compor a grade de apresentações de um ano inteiro. O anônimo foi um dos selecionados no ano passado para compor a grade de 2014, e assim, fez 8 apresentações nas cidades de: Brasília(DF), Vitória (ES), Porto Velho (RO), Salvador (BA), Belo Horizonte (MG), Cuiabá (MT) e Nova Iguaçu (RJ).


Larissa Mota Calixto

Escritora que adora jazz, folk, dias chuvosos, conversas interessantes e cinema..
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