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Dialogos com cinema e outras artes...

Larissa Mota Calixto

Escritora que adora jazz, folk, dias chuvosos, conversas interessantes e cinema.

E por que não falar das flores?

“Na realidade, observar as flores é tão importante quanto observar a vida em sua plenitude, e o contato do homem com os animais é tão relevante como o contato com as flores.” — O zen na arte da cerimonia das flores, Gusty L. Herrigel. Neste artigo proponho mostrar a poesia e sabedoria por trás da arte japonesa do Ikebana.


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Dentro da filosofia budista existe a enriquecedora arte de fazer arranjos florais, chamada Ikebana. Ao ler o livro O zen na arte da cerimônia das flores, escrito por Gusty L. Herrigel pude perceber que a beleza dessa arte vai muito além do simples ato de fazer belíssimos arranjos. Na verdade, a beleza está na simplicidade. Aqui os arranjos encontram-se cheios de sabedoria, pois, através dele, o discípulo consegue conectar o seu coração ao coração da planta. Isso vale muito mais do que grandiosos arranjos, desprovidos de conexão e devoção.

“Entre as dez virtudes, a condição é a união com o “coração da flor” (hana no kokoro) e com o “coração universal”.

“O principiante é estimulado a prestar muita atenção ao “coração da flor”.

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No budismo aprende-se que todos os seres vivos merecem respeito seja ele uma planta, um animal ou um ser humano. Todos são igualmente importantes para compor o “Todo”. Na arte da Ikebana, — ike significa “dar vida” e bana significa “flor” — o discípulo aprende a olhar para dentro, ser humilde e conectar-se com o cosmos e a terra a partir de sua prática.

Palavras do mestre Bokuyo Takeda:

“A mera beleza não leva a nada; ela só se completa em uníssono com o sentimento verdadeiro.”

“A beleza unida à virtude é poderosa.”

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“E aquilo que o discípulo aprende ao escutar o coração da flor e o que incorpora a seu próprio coração, ele repartirá com os outros, de modo generoso e desinteressado. Assim uma eterna corrente de amor flui do coração da flor para o coração do homem, chegando até o coração do Todo, e do mesmo modo no sentido inverso.”

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“Uma flor ou um ramo florido bem poderiam refletir o modelo de vida com a mais pureza do que qualquer homem que se considerasse um fenômeno excepcional.”

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Ao ler o livro de Herrigel, pude perceber o quão sábio, belo e profundo pode ser o simples. Acredito que temos muito a aprender observando a natureza e nos abrindo para conhecimentos vindos de diversas partes do mundo. Devemos abrir nossas mentes e perceber que a beleza do mundo está na diversidade de olhares. Não existem verdades absolutas e irrefutáveis. O que existe são pontos de vistas diversos e enriquecedores.

Talvez se olhássemos mais para o agora e agíssemos menos preocupados com os resultados e mais voltados para o caminho como os budisdas e yogis tentam nos ensinar, se aprendêssemos a ver a natureza sob uma perspectiva mais de gratidão, como os ditos pagãos tentaram nos ensinar, talvez hoje o mundo fosse mais belo.

Acredito sim que haja muita beleza no mundo. Acredito sim na essência boa do ser humano. E acredito que em algum ponto nos perdermos mas, nunca é tarde para mudar. Talvez eu seja sim utópica. Mas, sem a utopia estaríamos perdidos e dominados pela desesperança.

“O que constatamos é que o ser humano e a sociedade não podem viver sem utopia. Que dizer, não podem deixar de projetar seus melhores sonhos nem desistir de busca-los dia após dia. Se não houvesse utopias, imperariam interesses menores. Todos chafurdariam no pântano de uma história sem esperança porque sempre dominados pelos mais fortes.” — Saber cuidar ética do humano – compaixão pela terra, Leonardo Boff.

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Não adianta ficarmos parados esperando que terceiros façam as mudanças necessárias. Para mudar, é preciso que cada um de nós olhe primeiro para dentro de si e comece pelas pequenas coisas. Mais um pouco da filosofia oriental...

Fontes:

O zen na arte da cerimonia das flores, Gusty L. Herrigel.

Saber cuidar ética do humano – compaixão pela terra, Leonardo Boff.


Larissa Mota Calixto

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