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Dialogos com cinema e outras artes...

Larissa Mota Calixto

Escritora que adora jazz, folk, dias chuvosos, conversas interessantes e cinema.

Por um mundo mais humano e sem rótulos

O longa-metragem The visitor, de Thomas McCarthy, nos leva a refletir sobre estereótipos que criamos acerca de pessoas e culturas. Até que ponto o nosso medo do desconhecido nos protege e até que ponto ele agride mais pessoas além de nós mesmos?


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Há um ano fiz um intercâmbio para a Romênia e convivi com pessoas de diversos países – Índia, Paquistão, Turquia, Polônia, Holanda, Portugal – e de muitos outros lugares. Foi uma experiência interessante conviver com diferentes culturas. Um dia, numa feira cultural, organizada pelo pessoal que nos recebia na Romênia, pediram para gravarmos um vídeo no qual cada um deveria segurar uma plaquinha, desconstruindo algum estereótipo ligado ao nosso país. Um dos meninos do Paquistão segurava uma placa dizendo: “eu não sou um homem bomba”, aquilo me marcou. Os mulçumanos com quem tive a oportunidade de conviver não se encaixavam nos estereótipos que circulam nos meios de comunicação ocidentais. Convivi com uma moça mulçumana que estudava, não foi forçada a se casar e nem usava burca. Os rapazes, por sua vez, eram muito tranquilos, bem diferentes da imagem convencional. Tratava-se de jovens como eu, talvez como você ou até como seu filho ou sobrinho. Eram pessoas comuns. É triste a maneira como o povo árabe tem sido rotulado pelo ocidente e como sofrem inúmeras discriminações.

Aqui mesmo no Brasil um dia liguei a televisão e vi duas mulçumanas brasileiras relatando agressões que sofriam nas ruas pelo simples fato de serem mulçumanas. Estamos respondendo à violência com mais violência, agredindo pessoas inocentes.

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O visitante, de Thomas McCarthy, filme lançado em 2007 num Estados Unidos pós 11 de setembro relata a historia de Walter Vale (Richard Jekins), um solitário professor universitário que tem sua vida preenchida pela companhia de um casal de imigrantes mulçumanos, bem diferente dos padrões construídos em nossas cabeças.

Desde o atentado terrorista de 2001 as medidas de segurança se tornaram muito mais severas, principalmente, tratando-se de um imigrante árabe. Eu acredito que a arte tem um forte poder de influência sobre as pessoas, portanto filmes como esse são extremamente necessários para os dias de hoje. Eles nos ajudam a desconstruir conceitos e a criar uma visão mais humana sobre toda essa situação que nos cerca.

Filmes contando histórias de imigrantes e como vivem tem sido cada vez mais comuns nas telonas. O cinema, assim como a literatura faz um recorte do que acontece no mundo a nossa volta. A impressão de distanciamento por acreditarmos se tratar de uma mera ficção nos envolve e emociona em histórias que podem ser muito mais reais do que imaginamos.

Walter vai à Nova York para uma conferência e volta ao seu antigo apartamento, fechado há algum tempo. Chegando lá ele se depara com o músico Tarek Khalil (Haaz Sleiman) e a artista Zainab (Danai Jekesai Gurira) dois imigrantes ilegais da Síria e do Senegal respectivamente. Eles alugaram o apartamento, enganados por um amigo. Ao perceber que o casal não tinha lugar para ficar Walter permite que eles fiquem no apartamento por algum tempo e, a partir daí, ele passa a experimentar e conhecer um pouco da cultura de um outro povo. A beleza do mundo está na diversidade, nas diferenças. Essa mensagem que o filme nos passa.

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Sua paixão pela música faz com que Walter se aproxime de Tarek e passe a conhecer uma nova maneira de aprecia-la. Tarek o apresenta a novos músicos e o ensina a tocar tambor, e assim nasce uma forte amizade.

Em paralelo com essa visão mais humana de um povo cuja cultura ainda é pouco conhecida por nós, somos levados a perceber como também são afetados pela guerra contra o terror. Torna-se evidente a tensão das personagens cada vez que algum policial se aproxima. Até que um dia, por um mal entendido, Tarek vai preso e passa a sofrer ameaças de ser deportado. Walter então move montanhas para tentar libertar seu amigo e a trama se desenrola a partir daí, fazendo diversas críticas à situação dos imigrantes nos EUA, que ironicamente integram boa parte do seu povo.

O filme recebeu merecidamente diversos prêmios e indicações em festivais na Europa e nos EUA, incluindo indicações de melhor ator e melhor diretor. Foi premiado no Festival Indepentent Spirit Awards (2009), na categoria de melhor diretor e, no Festival de Moscou (2008) Richard Jekins foi premiado na categoria de melhor ator.

Vivemos em um mundo conflituoso com riscos de ataques terroristas e guerras sendo declaradas. Todos temem o que pode acontecer. Porém, não podemos esquecer de que os terroristas assombram o mundo não constituem a maior parte do povo árabe. Terroristas são terroristas, levados pelo fanatismo e extremismo. Essa descrição não representa necessariamente o povo árabe, mas sim uma minoria. É um crime agredirmos pessoas que nada tem a ver com a barbárie cometida por determinados grupos. Devemos ter cautela com os nossos pré-conceitos. Devemos estar abertos para conhecer o outro, desconstruir estereótipos e buscar um mundo com mais respeito. Em tempos de pós-modernidade, o ser humano é complexo demais para caber em rótulos.


Larissa Mota Calixto

Escritora que adora jazz, folk, dias chuvosos, conversas interessantes e cinema..
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