grand café

Dialogos com cinema e outras artes...

Larissa Mota Calixto

Escritora que adora jazz, folk, dias chuvosos, conversas interessantes e cinema.

Doce sinestesia gelada

Você já parou para comer e apreciar cada pecadinho da sua comida hoje?


12476786_1050159798359222_189742564_o.jpg Foto de Chico Egidio

A comida é um misto de arte e de magia brincadeira de sentidos, memórias e sentimentos. Vivenciar essa experiência é uma das propostas gastronômicas do charmoso Café de Bule, em Petrolina-PE, com uma decoração criativa e aconchegante. O lugar te convida a se deliciar com uma culinária, denominada por suas proprietárias, Geórgia Romero e Solange Soares, de Cozinha Afetiva.

“A comida é mágica, ela tem o poder de reunir, aproximar pessoas, além de ser algo que pode ser apreciado também quando estamos sozinhos, trazendo memórias e sentimentos.” — Georgia Romero.

Segundo Georgia, a cozinha afetiva seria aquela comida que nos transporta para a casa das nossas avós, seguindo a filosofia do comer bem. Ela se preocupa com cada detalhe, com cada ingrediente. Fugindo das comidas pré-preparadas, que resultam de uma revolução muito positiva que é a revolução feminista. A mulher que antes se limitava ao lar, agora tem o mundo para si. Só que, infelizmente, a sociedade até então só havia preparado os homens para serem servidos como reis. A mulher, sobrecarregada, trabalha fora e dentro de casa. A cozinha, portanto, teve que se tornar mais prática, por isso vieram as comidas congeladas ou semiprontas. O tempo agora é dinheiro! Para não perdê-lo, nascem também os fast-foods. Hoje percebemos que essa praticidade custou caro para a saúde das pessoas e, então, passamos a buscar unir praticidade e saúde.

“Fazemos desde o pão até os sorvetes e as bases para recheios de bolo. Tudo é feito aqui. Procuramos usar o mínimo possível de produtos industrializados e processados.” — Relata a confeiteira Georgia, guiada pela criatividade e ética de alimentar o outro, herdadas dos ensinamentos de sua primeira professora: sua mãe.

12837581_1050160011692534_1696171897_o.jpg Foto de Lizandra Martins

Ela relata também a compulsividade de se trabalhar ou apreciar a cozinha. “Essa área é bem compulsiva se não é para comer, é compulsiva para fazer. Essa compulsão move a gente para buscar coisas novas”, o resultado disso são receitas cada vez mais inusitadas e inovadoras que brincam com o paladar e rompem aqueles paradigmas que considerávamos inquestionáveis, afinal quem falou que bacon não pode virar um delicioso sorvete?

Certo dia... Fui curiosa explorar possibilidades e experimentar algo, no mínimo inusitado para esta que vos escreve. Investiguei o cardápio da cafeteria pernambucana e vi opções de sorvetes que nunca havia imaginado existir. Eram sabores, como: rosas, bacon, gengibre manjericão, capim-santo, rapadura e outros sabores, assim, bem diferentes, desses que nunca imaginei ver em forma de sorvete. Óbvio que eu quis tirar um dia para provar todos eles e conversar com a criativa e feliz idealizadora de cada um daqueles sabores.

Foi uma das tardes mais sinestésicas de todas. Provei sabores que se misturavam a cheiros e texturas inusitadas. Afinal, quem disse que rapadura é doce, mas não é mole? Ela é doce e mole sim! Eu vi, senti!!!

12443119_1050161595025709_329599855_n.jpg Foto de Solange Soares

Sabe aquele chazinho que nós tomamos para dar aquele aconchego quando estamos doentes? E se ele vier em forma de sorvete de capim-santo? Ou aquele perfume cheiroso que, de repente, provamos em formato de um saborosíssimo sorvete de rosas? Sim, o gosto me remeteu diretamente aos aromas de perfumes, surpreendentemente delicioso!

O mais inusitado, sem dúvida, foi o de bacon. Não esperava encontrá-lo assim: super doce e cremoso. O de queijo do reino era salgado! E o de manjericão leitoso e de sabor suave. Até patrimônio imaterial virou sorvete, o famoso bolo de rolo pernambucano não escapou das habilidosas mãos da nossa confeiteira que, ao invés de provar sua perícia no ato de dar voltas na fina massa do doce, ela o transformou em sorvete, vê se pode?

“O que tiver a gente faz um sorvete!”, brinca a criativa moça que de artista das letras transfigurou-se em artista dos sabores e dos cuidados. A culinária é sim uma arte que deveria ser apreciada com mais cuidado. Parar e apreciar pelo menos uma refeição ao dia pode tornar-se uma experiência inesquecível e divertida magia para nossos sentidos. Ou que tal ousar um pouco e provar coisas completamente diferentes do habitual? Essa pode ser uma aventura e tanto para muitos.


Larissa Mota Calixto

Escritora que adora jazz, folk, dias chuvosos, conversas interessantes e cinema..
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