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Regressar às origens... quando tudo falha

Luís Pereira

Chamo-me Luís Pereira e quero acreditar que o homem tudo pode. Só não consegue mudar a sua própria condição, de quem vai com Caronte. Só nos resta ouvir a prosa e a poesia da "nossa Grécia".

"Le Havre", o porto de abrigo

Estreou em 2011, realizado em França, por um finlandês, sobre uma criança africana que chega a uma cidade da Normandia e que desejava chegar a Londres...

Uma comédia, um drama, uma forma de mostrar que um mundo melhor depende, apenas, de uma coisa: uma perspectiva.


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Literalmente, "O porto". Esta cidade portuária da Normandia, norte de França, acabou por ser uma de outras novas experiências, fora de Helsínquia, para o realizador Aki Kaurismäki. Não é a primeira vez mas é, sem dúvida, uma das mais simbólicas vezes, representadas em filme.

Comédia ou drama? A opção representa a visão de quem opta.

A personagem mais influente na trama, Marcel Marx, vive com a sua mulher, Arletty, em Le Havre. De uma vida de escritor, sem grande sucesso, passou para uma vida de engraxador de sapatos, de sustento de uma casa apenas para dois. Não deixa de ser um recomeço e apesar da sua condição humana ser pobre e próxima dos limites da miséria, não deixa de lado o optimismo e a dignidade que o caracteriza.

É após a introdução deste pano de fundo que Marcel se depara com Idrissa, uma criança africana que emigra ilegalmente, com mais refugiados, em contentores de mercadorias. Planeia chegar a Londres, onde se encontrava a família desta criança há algum tempo. A polícia, através da denúncia de um vigilante portuário, descobre e encaminha para um campo de refugiados, "fora dos olhares dos franceses", o grupo de emigrantes africanos. Deste grupo, Idrissa consegue escapar da polícia para ainda sonhar encontrar-se com a sua mãe, do outro lado do Canal da Mancha.

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O filme poderia, meramente, mostrar o destino mais comum de um emigrante africano, como Idrissa, e explorar as condições de uma viagem de risco, comum, em França, como em Itália ou outros países do litoral europeu. Ainda assim, a história não tem, toda ela, de ser igual. E a vontade de alguém que, sem sorte na vida, acabou por ser a sorte da vida do rapaz, mudou o destino e, quem sabe, o futuro de um ser desprotegido socialmente, culturalmente, legalmente. Poderá haver maior forma de estar sem protecção...

Trata-se de um exemplo de que nem tudo tem de acabar mal e que, por muito pouca probabilidade de êxito que possa ser atribuída a uma situação de risco destas, a esperança de um futuro melhor é algo sempre válido, sem ter que ser censurado face ao realismo "fatalista".

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No filme, Marcel não desiste de um mundo melhor, mesmo com a falta de sorte profissional, a doença da mulher, a incerteza da refeição na mesa e o encargo de querer salvar alguém do campo de refugiados. Afinal, o que nos move? Como surge esta força anímica ou como pode ser trabalhada? Só pela educação?

É certo que não se mexeu sozinho. A proeza que Marcel foi capaz de fazer (de manter o rapaz afastado dos olhos da polícia e em condições de escrever direito, por linhas tortas, o reencontro deste com a mãe, sob vigilância atenta, quando tudo era obstáculo)só foi possível com a ajuda de vários "terceiros" (como o inspector da polícia). Em conjunto, é-se mais forte, vai-se mais longe. Então, porquê recusá-lo?

A arte pode tanto como a vida e o cinema também é um bom porto de abrigo.


Luís Pereira

Chamo-me Luís Pereira e quero acreditar que o homem tudo pode. Só não consegue mudar a sua própria condição, de quem vai com Caronte. Só nos resta ouvir a prosa e a poesia da "nossa Grécia". .
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