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Regressar às origens... quando tudo falha

Luís Pereira

Chamo-me Luís Pereira e quero acreditar que o homem tudo pode. Só não consegue mudar a sua própria condição, de quem vai com Caronte. Só nos resta ouvir a prosa e a poesia da "nossa Grécia".

E nasceu Sophia...

"Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino."

Será, esta, Sophia de Mello Breyner?


... a 06 de Novembro de 1919. Poetisa portuguesa, apreciadora da cultura clássica, com espírito crítico e político. O que a define é a sua capacidade imaginativa, de explorar coisas por escrito, de ver por cima de, sem esquecer a realidade que percebia. À maneira clássica, na Grécia, sem esquecer o Portugal... contemporâneo.

sofia mba.jpg

Enquanto Portugal, actualmente, "se afasta", cada vez mais, da Grécia (e não estou a falar em termos económico-financeiros...), vem à mente, o aniversário de uma das maiores poetisas que Portugal, alguma vez, teve. E Portugal não se decepcionou... E Sophia, decepcionou-se? Consta que sim.

A sua ligação ao Porto se deve ao seu bisavô, Jan Andresen, que desembarcou, um dia, para deixar as sementes na cidade do Porto que se conhecem. Tem origem dinamarquesa pelo lado paterno e foi o seu pai, João Henrique, a "destiná-la" a um local de residência ao comprar a Quinta que hoje é o Jardim Botânico do Porto, na Rua do Campo Alegre. Foi criada num meio aristocrático ainda existente na altura, no Porto. A sua educação foi acompanhada de uma aprendizagem e de uma interiorização dos aspectos da natureza e de sensibilidade social e humana. Mas é incontornável o seu gosto pelo classicismo que perdura ao longo da sua vida e nas suas obras.

Chegou a ter participação política no Partido Socialista e o seu marido, no Partido Social Democrata mas os seus contos e poemas são a maior credibilização política que a autora poderia conseguir fazer numa sociedade que, hoje, começa a fartar-se da política dos governantes técnicos. E quando acaba?

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Escreveu, entre outros formatos, bastantes contos infantis. Talvez pela convicção de que, uma sociedade renovada, renasce da base porque o que nasce torto, tarde ou nunca se poderá endireitar. Mas teve a ilusão de que, sim, a sociedade poderia renascer quando, sobre o 25 de Abril, escreveu:

"Esta é a madrugada que eu esperava O dia inicial inteiro e limpo Onde emergimos da noite e do silêncio E livres habitamos a substância do tempo"

A espera foi longa (ainda vai) e, quando percebeu isso mesmo, não deixou de dizer:

"Espero sempre por ti o dia inteiro, Quando na praia sobe, de cinza e oiro, O nevoeiro E há em todas as coisas o agoiro De uma fantástica vinda."

Sophia, em "Exílio", entendeu que:

"Quando a pátria que temos não a temos, Perdida por silêncio e por renúncia, Até a voz do mar se torna exílio, E a luz que nos rodeia é como grades"

Exilio.jpg

Existem escritos intemporais, podendo ser bom, podendo ser mau. Mas que fazer quando a nossa casa é o exílio?


Luís Pereira

Chamo-me Luís Pereira e quero acreditar que o homem tudo pode. Só não consegue mudar a sua própria condição, de quem vai com Caronte. Só nos resta ouvir a prosa e a poesia da "nossa Grécia". .
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