Gui Mendes

Vence por pontos e não por nocaute

50 anos do sujo Bang-Bang à Italiana

Após a queda do prestígio dos filmes western no final da década de 50 nos Estados Unidos, um sub-gênero, vindo de longe, reinventaria o modo como os famosos "caubóis" seriam vistos. Os antes galantes defensores dos oprimidos, beijadores de moçoilas, agora se tornariam o anti-héroi anônimo e sujo. O baixo orçamento e uso excessivo do sangue tornariam-se a marca registrada deste cinema, que muitas vezes não só contava uma simples história, mas sim aprofundava-se em alegorias políticas em relação ao capitalismo americano.


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Aconteceu em 1903. Quando finalmente a narrativa faroeste, fugiu do meio litérario da época, atingindo o público do cinema mudo. Kit Carson tinha apenas 21 minutos de duração, e nesses poucos instantes -comparado à atual conjuntura- é possível enxergar todas as fortes características que marcariam o cinema western que o seguiria. Junto de The Great Train Robbery (1903), onde ocorreu o primeiro tiroteio final, além de perseguições a cavalo, Kit Carson enraizou , no gosto coletivo americano, o gênero que faria sucesso absoluto através dos anos subsequentes.

Com o tempo, o gênero passou por uma longa transformação, em cojunto da tecnologia que o cercava, perante a crescente popularidade da fórmula "caubói-bandido-mocinha" em território americano. Só então em 1923, um dos maiores nomes do gênero -e do cinema- teria sua alcunha conhecida como atualmente é, John Ford, não mais o ator Jack Ford, lança Cameo Kirby. Desde então continuou na direção de diversos filmes da mesma categoria, deixando clara a preferência do estilo que o consagrou, disseminando pelo mundo a tendência "bang-bang" com o rosto do, magistral, ator John Wayne.

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Foi então que no ano de 1964, com o desgaste da fórmula dos "caubóis" de barba feita, e dos westerns revisionários lembrando que nem todo índio é o vilão da história, veio Sergio Leone com sua visão, italiana, de velho-oeste. A famosa visão exagerada italiana em forma "gore" sangrenta de paródia que, até então, já conhecemos muito bem, como os filmes de Daria Argento em contrabalanço à Hitchcock, ou Zombi 2, do Lucio Fulci, relacionado ao Dawn of Dead de Romero. Leone então filmou aquele que seria considerado o primeiro filme de um sub-gênero que reviveria o western, curiosamente, distorcendo a estética antes pré-estabelecida.

Era sujo, como deveria ser. Não mais seriam aqueles bem vestidos de dentes limpos, na visão de John Ford. Não mais mocinha intocável e frágil na espera do herói sedutor. O sangue jorrava, manchando a película com traços fortes, apesar do absurdo das cenas de ação. A história remontava, na maioria das vezes, alegorias dos momentos importantes e atuais do mundo dando seus primeiros passos como capitalista. Não existiria nome melhor para um filme iniciar o "hype" da época do nascimento deste sub-gênero: "Por um punhado de dólares"... Exibido a quase 50 anos atrás, continua como referência até hoje.

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Foi apenas o começo do que se transformaria num trem imparável, que se popularizou por onde passou ao longo dos anos, na Europa, se espalhando pelo mundo. Além do genial Sergio Leone, com sua trilogia dos dólares, e dos outros diversos filmes como "Era uma vez no oeste", existiram outros grandes profissionais que compartilharam da sua visão e que hoje não são tão reconhecidos quanto a tríade já tão memóravel(Leone-Morricone-Eastwood). Entre eles estão:

Sergio Corbucci:

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Com uma qualidade tanto quanto brutal, inserido em suas películas, incluindo cenas de mutilação e uma quantidade superior de cadáveres(quando comparado a outros do sub-gênero), o diretor conquistou seu nome com filmes estrelando o ator Frank Nero(Django, Compañeros, The Mercenary). Entre seus muitos filmes os mais citados entre os melhores são Django, Johnny Oro e Compañeros, que possuem uma estética um tanto quanto violenta, marca registrada de Corbucci.

Duccio Tessari:

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Co-roteirista de "Por um punhado de dólares" junto de Sergio Leone, Tessari dirigiu como seu primeiro spaghetti western o filme "A Pistol for Ringo", o que popularizou o ator Giuliano Gemma como grande colaborador em seus filmes posteriores. Dentres eles, além de "A Pistol for Ringo" e "The Return of Ringo", outros como "Kiss Kiss...Bang Bang" e "Sundance and the Kid" são considerados os melhores do estilo, ambos com o Gemma como protagonista.

Giulio Petroni:

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Antes de se aventurar, tornando-se um dos alicerces do estilo, Petroni chegou a dirigir uma comédia chamada de "La cento chilometri" que não lhe rendeu boas críticas. Anos depois com "Death Rides a Horse", com o lendário Lee Van Cleef(The good, the bad and the ugly), alcançou a popularidade. Logo depois nos anos subsequentes dirigiu "A Sky Full of Stars for a Roof" e "Tepepa" considerados como um dos mais importantes do gênero.

Poderia escrever um livro, como muitos que existem por aí, citando nomes, filmes, compositores e afins. Não é necessário. Todavia é claro que também não posso deixar de falar sobre Enzo Barboni, Damiano Damiani e Sergio Sollima. Pronto, só os nomes já basta, e a quem interessar fica a enorme indicação de se aprofundar neste gênero tão profundo e polido.

Com a chegada da década de 70, o western spaghetti acabou não se adaptando as muitas mudanças que ocorreram na sétima arte com o passar do tempo. E como toda "moda" ela passou. Algumas outras produções tentaram reviver o gênero como "Keoma" e "Four of the Apocalypse", contudo, basicamente, não conseguiram repetir o sucesso antes conquistado.

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No fim, o bang-bang à italiana permaneceu nos corações dos mais entusiastas da maneira como realmente era... "feo, forte y feroz", as exatas palavras que também, coincidentemente, estão gravadas na lápide de John Wayne.


Gui Mendes

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