Gui Mendes

Vence por pontos e não por nocaute

Adaptação, uma aula de roteiro aos avessos

Uma análise superficial da obra prima de Kaufman, que abusa da metalinguagem explorando suas próprias experiências na hora de adaptar o trabalho de terceiros.


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Charlie Kaufman não precisa de apresentação. Num mundo onde os diretores são os ganhadores dos louros, por trás das câmeras, ele conseguiu achar seu espaço como poucos outros roteiristas conseguiram. Qualquer aspirante a essa profissão, ou qualquer um que se diga cinéfilo, conhece seu trabalho. Seja pela parceria mais querida dos fãs com o Spike Jonze em “Quero Ser John Malkovich” e o próprio "Adaptação", ou em seu filme mais conhecido do grande público “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”. Kaufman foge do pardão hollywoodiano, suas histórias sensivelmente esquisitas e relativamente complexas, unem, de maneira magistral, o pop e o alternativo, em diversas interpretações das suas alucinações cinematográficas.

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Em Adaptação o roteirista brinca com as formas de desenvolvimento de um roteiro, desencadeando numa, invejável, história que permeia entre fatos e ficção, numa linha guia que deveria ser a obra-original que o próprio Kaufman estaria adequando. Na trama, ele, Charlie Kaufman, precisa adaptar o livro “O Ladrão de Orquídeas”, da escritora Susan Orlean. O problema é que o roteirista passa por uma severa crise de personalidade, em que se encontra gordo, calvo, paranóico e sem inspiração para viver. É a mais pura depressão em forma humana. Sem muitos caminhos a seguir, devido a falta de estímulo, ele acaba se inserindo no filme como o protagonista.

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É confuso traduzir toda a genialidade deste roteiro em poucas palavras. Podemos pensar nele como um verdadeiro exercício metalinguístico de cinema, onde existem dois filmes dentro de Adaptação. No primeiro deles, o andamento é lento e abstrato, com enfoque total na hilária, deprimente e angustiante depressão corrosiva de Charlie. Sua falta de confiança, seu ódio pelo irmão gêmeo Donald(que possui a auto-confiança que lhe falta), sua ausência de tato com a mulher que deseja. Em outras palavras um personagem que luta para ser normal, mas falha miseravelmente ao longo do filme. Diante de tantos problemas, claramente sua criatividade é afetada. Então o mesmo participa de uma palestra do mestre roteirista Robert McKeeque, e esse encontro marca o início do outro filme dentro do filme. Sim, praticamente um inception de películas. McKeeque acaba orientando Charlie, dizendo-lhe para colocar mais emoção no roteiro, que até então falava de flores e de como a vida poderia ser simples em seus mínimos detalhes. E para ter mais adrenalina ficava subentendido que amizades deveriam se tornar romances proibidos, flores virariam drogas perigosas e por aí vai. É então que tudo isso começa acontecer no filme à medida que Charlie progride em sua própria adaptação pessoal. Criando uma mistura de realidades primorosa.

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Por esses e outros diversos motivos, Adaptação é uma alegoria ao cinema em sua essência. Criando uma barreira pífia entre a ficção e a realidade, trocando de papéis ao longo do filme, numa aplicação genial. A liberdade criativa que Kaufman aborda no filme é algo extraordinário, tornando a obra uma aula de roteiro, em seus diversos aspectos, por mais que subversivos em alguns dos pontos.


Gui Mendes

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